Resenha │ Um Brinde à Vida

12.05.2016 │ 15:34

Jean-Jacques Zilbermann tenta fazer de Um Brinde à Vida um brinde àqueles que não suportaram o Holocausto, o evento mais obscuro do século XX, mas fica quilômetros de distância dos eventos que descreve.
Inspirado na história real da mãe de Zilbermann e duas amigas que ela conheceu em Auschwitz, este filme é belo em sua proposta, mostrando o reencontro destas três mulheres em um passeio à beira-mar, 15 anos após a guerra. Porém, ele deixa de capturar o peso do trauma pós-guerra ou a incrível química entre elas. Mas talvez esta seja a proposta.
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Para entender o que falta na recriação de Zilbermann basta olhar para o plano final de seu filme, que revela filmagens reais das três mulheres nos anos 80. Elas transbordam alegria de viver, coisa que parece faltar em suas contrapartes ficcionais. O vínculo entre elas foi tão forte que elas se reuniram todos os anos na costa norte da França, e uma abordagem um pouco mais documental teria feito mais justiça a sua história.
O tema podia ser delicado demais para a mãe de Zilbemann, Irene, pois Um Brinde à Vida foi filmado após a morte dela. Jean-Jacques compartilha detalhes que talvez fossem demasiado sensíveis para representar durante a vida de sua mãe, mas muda os nomes das três mulheres envolvidas e ficcionaliza pedaços particulares para evitar desentendimentos com as famílias das amigas das mães. Mas a sensação durante o filme todo é que o longa é um grande tributo a alguém que morreu, apesar de distrair-se demasiadamente com detalhes de época (como os trajes e os carros, por exemplo), sem resolver o tom dramático do longa.
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Aqui, Irene se torna Helene, interpretada por Julie Depardieu. Depois de um breve prólogo em Auschwitz, Helene retorna a Paris e tenta retomar sua vida de onde parou, fazendo amizade com um militante comunista, mas não aceitando a sua proposta de casamento, a fim de estar com seu amor do pré-guerra.
Obviamente, não é fácil fingir que o Holocausto nunca aconteceu – que é um dos temas recorrentes no filme de Zilbermann. Não importa a cena, Auschwitz é sempre o elefante branco no canto da sala, pairando sobre o quarto do casal, por exemplo, onde Helene e seu marido são incapazes de consumar sua união, já que ele foi castrado nos campos de concentração. Mas os sobreviventes têm uma escolha: ou eles se deixam levar apenas pelas tragédias que experimentaram, ou podem contar suas bênçãos e seguir em frente.
Por 15 anos, Helene colocou anúncios nos classificados do jornal esperando encontrar Lili, sua amiga mais próxima de Auschwitz – uma alma gêmea que ela nunca teria conhecido se não fosse a situação terrível que elas suportaram juntas. Tais são as ironias da vida! Mas ela não poderia ter antecipado a dor que acompanharia toda a alegria do reencontro há muito esperado, no início dos anos 60. Lili surpreende Helene ao trazer sua amiga Rose (Suzanne Clement, musa de Xavier Dolan), a quem ela acreditava morta todo esse tempo.
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Assistir à maneira delicada como esse trio se reconecta e como os personagens descobrem um no outro as bases para um apoio necessário entre si é, de longe, o aspecto mais interessante de Um Brinde à Vida. Mas apesar das personalidades incríveis das três protagonistas (especialmente Rose, que é interpretada por Clement como uma musa dos filmes dos anos 60), os personagens soam falsos em meio à toda distração da câmera com a direção de arte do filme.
Emocionalmente, esse grupo de apoio formado pelas mulheres funciona. Até a confissão catártica que ela precisa fazer, a fim de seguir em frente com a sua vida (sugerindo que toda a cura de Auschwitz aconteceu naquele primeiro reencontro, quando, na verdade, deve ter continuado ao longo de décadas).
Dada a complexidade dos eventos vivenciados pelas personagens, era de se esperar mais profundidade no que seria o tributo do diretor à vida de sua mãe. Não é um péssimo filme. Longe disso! Mas poderia ser bem melhor!
Nota:

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Um Brinde à Vida

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