Resenha │ Um Limite Entre Nós

02.03.2017 │ 09:19

Um Limite Entre Nós é baseado na peça vencedora do Prêmio Pulitzer, de August Wilson, escrita em 1983 e estreada na Brodway em 1987. Assim como o espetáculo, a versão cinematográfica dirigida por seu protagonista Denzel Washington, a história se passa em um bairro negro de classe média baixa de Pittsburgh em meados da década de 1950.
Ao assistir essa adaptação você sente como se estivesse vendo um trabalho de um tempo distante, como O Sol Tornará a Brilhar (1961) ou A Morte do Caixeiro Viajante (1951). Um Limite Entre Nós é um drama familiar cheio de angústias, forjado a partir de um senso de destino que, hoje, soa antiquado. Mas diferente da peça, que é descrita como atemporal, o filme está mais para uma jornada de um dia longo, onde você topa com assuntos pesados, épicos e prestigiosos, mas que só fazem sentido no momento histórico retratado no longa.

O personagem principal, Troy Maxson (Washington), é um patriarca desgrenhado com um orgulho gigantesco que o define. Ele trabalha como coletor de lixo, e quando o vemos pela primeira vez, ele está terminando seu turno numa sexta-feira e se dirigindo para casa a fim de comemorar a folga de fim de semana como sempre faz. Ele compartilha uma garrafa de Jim com seu colega Bono (Stephen Henderson) e se dedica a sua esposa Rose (Viola Davis), a qual é casado durante 18 anos. As tiradas entre o casal te fazem perceber, logo de cara, que o amor entre eles é mútuo, mas nada impede alguns percalços entre eles no caminho.
Troy é tão econômico que afirma não poder pagar por um aparelho de TV para sua família, mas lhes garante uma vida segura em sua modesta casa de tijolos aparentes. Ele é um homem inteligente o suficiente para apenas ter indagado cabisbaixo, sem bater de frente com o seu supervisor no trabalho, o motivo pelo qual Pittsburgh não tem nenhum motorista negro de caminhão de lixo.

Muito de Um Limite Entre Nós se passa no quintal da casa de Maxson, mas o filme não parece estático graças às escolhas de Washington enquanto diretor e ator. Os diálogos de Wilson são uma maravilha a parte – cheios de sentimentos, naturais e até mesmo profanos. E Washington lacrimeja com uma ferocidade quase alegre, como se fosse um homem possuído.
Troy já foi um jogador de beisebol profissional, mas nunca encontrou fama ou fortuna no jogo e isso o faz não aceitar que agora o jogo está se abrindo para a fama de outros negros. Quando ele desdenha dos novos jogadores, afirmando que é melhor do que todos eles, sua queixa mostra o ego ferido do personagem que não quer que ninguém desfrute do sucesso que lhe foi negado, inclusive seu filho adolescente, Cory (Jovan Adepo).

Troy não acredita que a sociedade mudará para os negros, então ele transforma essa crença em uma profecia autorrealizável. Ele é um homem honrado, mas de certa forma também é um idiota irracional. Washington transita entre os dois lados de seu personagem em total equilíbrio, de forma que quando seus demônios são revelados ele nunca nos pareceu mais humano.
Enquanto isso, Viola Davis tem as melhores passagens do longa. Sua atuação é excelente no momento em que o egoísmo de Troy é completamente revelado e ela entrega um monólogo de agonia chorosa, que nos mostra a realidade de uma mulher que acabou de ter seu coração partido pelo homem que ama por quase duas décadas.

Um Limite Entre Nós nos faz acreditar que a vida destes poucos personagens são importantes e têm relevância, por uma causa boa e nobre, mas isso também nos deixa cientes (até demais!) que o filme quer ter mais relevância do que realmente terá na história do cinema.
Nota:

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Um Limite Entre Nós

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