Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

(2025) ‧ 1h53

21.12.2025

"Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria": O paraíso vertiginoso de ser mãe

O que mais impressiona em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é a maneira como Mary Bronstein captura o colapso silencioso – e às vezes estrondoso – de uma mulher que não encontra respiro dentro da própria rotina. Desde os primeiros minutos, a câmera grudada no rosto de Rose Byrne já deixa claro que estamos entrando em território apertado, desconfortável, quase febril. Bronstein escolhe um caminho honesto e agressivo para retratar um tipo de exaustão que costuma ser suavizada por Hollywood, e é exatamente por isso que a experiência é tão marcante.

Linda, a protagonista vivida por Byrne, carrega o filme como um vulcão à beira da erupção. Entre o trabalho que a desgasta, a filha que demanda mais do que ela consegue oferecer e um marido eternamente ausente, ela se move por um labirinto emocional onde tudo é ruído, pressão e frustração. Bronstein transforma esse caos numa jornada que mistura comédia amarga, drama psicológico e flashes de horror – e, surpreendentemente, a combinação funciona.

O roteiro, ao mesmo tempo em que abraça o exagero, nunca perde de vista a humanidade de Linda. A diretora entende que a maternidade pode ser uma experiência contraditória, feita de amor e repulsa, dedicação e fuga, certeza e pânico. Em alguns momentos, o filme até flerta com o absurdo, como no enorme buraco no apartamento que a força a viver num motel sufocante. Mas tudo isso serve ao propósito maior: mostrar como o mundo ao redor de Linda parece constantemente conspirar para quebrá-la.

A prese2025nça de figuras secundárias — do marido controlador ao terapeuta impaciente, passando pela recepcionista hostil e pelo vizinho maconheiro — reforça essa sensação de uma heroína acuada por todos os lados. Ainda assim, Byrne encontra nuances em cada reação, evitando transformar Linda apenas em vítima. Seus acessos de irritação, sua vulnerabilidade e o desejo desesperado de ser ouvida tornam a personagem tridimensional, reconhecível e desconfortavelmente próxima da realidade.

Bronstein filma o cotidiano de Linda como um pesadelo palpável, oscilando entre a ansiedade sufocante de um longa dos irmãos Safdie e momentos de humor tão ácido que chegam a doer. A diretora conduz a narrativa como quem segura uma corda bamba: às vezes instável, às vezes irregular, mas sempre fascinante. Há escolhas que nem sempre funcionam, especialmente quando o filme abraça de vez o surreal, mas mesmo nesses pontos é possível perceber uma visão autoral clara.

No centro de tudo está Rose Byrne, entregando a melhor performance de sua carreira. Intensa, trágica, engraçada e profundamente humana, ela transforma Linda numa força devastadora. Há cenas em que a tensão é tamanha que o espectador quase sente vontade de respirar fundo junto com a personagem. Byrne dá corpo e alma a uma mulher que tenta sobreviver a um mundo que parece não lhe oferecer nenhuma saída.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme propositalmente desconfortável, um mergulho na mente de alguém à beira do colapso que não busca agradar nem aliviar. É uma obra para ser sentida — e, às vezes, suportada. Talvez não seja um filme para todos, mas é inegavelmente memorável, guiado por uma diretora com algo a dizer e por uma atriz no auge de sua potência.

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AUTOR

Felipe Fornari

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