Seu Cavalcanti

Onde assistir
"Seu Cavalcanti": Um avô como personagem de cinema

Seu Cavalcanti, novo longa de Leonardo Lacca, é mais que um filme sobre um homem de noventa e tantos anos. É uma obra que dialoga com a memória, com a ausência e com a forma como o cinema pode se tornar uma extensão do afeto. O diretor transforma o avô em personagem, mas também em matéria-prima de uma narrativa híbrida, que mistura documentário e ficção com liberdade. O resultado é uma experiência que equilibra inventividade e emoção.

O que me tocou profundamente em Seu Cavalcanti foi a relação entre cinema e memória familiar. Cresci ao lado do meu avô, vendo-o trabalhar com projetores e som de cinema, sem nunca registrar tudo aquilo em imagens. Ao assistir ao filme, senti uma ponta de desejo: queria eu ter filmado meus próprios instantes com ele, queria ter congelado em película cada história contada. Nesse sentido, o projeto de Lacca vai além da tela, pois fala também com todos que carregam saudades de um avô que marcou suas vidas.

O protagonista surge como uma figura cativante, cheia de humor e vitalidade, mas também atravessada pela passagem do tempo e por contrariedades que desafiam sua independência. A forma como o neto-diretor constrói esse retrato é delicada, muitas vezes brincalhona, sem jamais deixar de lado a dimensão humana. O filme não é sobre exaltar a velhice como resistência romântica, mas sobre reconhecer a dignidade e a personalidade de quem não deve ser apagado.

A montagem, conduzida com paciência e inventividade, é um dos maiores trunfos. São quase vinte anos de registros, que se transformam num tecido narrativo onde o cotidiano ganha força dramática. Momentos simples, como festas de família ou conversas casuais, convivem com cenas encenadas, dublagens e até efeitos especiais, embaralhando fronteiras entre real e imaginado. Essa fusão cria uma dimensão lúdica que mantém o filme vivo e surpreendente a cada sequência.

Outro mérito está nas participações especiais que se integram com naturalidade à trama. Ver Maeve Jinkings contracenando com o nonagenário é um desses encontros improváveis que só o cinema pode proporcionar, sem soar forçado ou deslocado. Essas colaborações ampliam a dimensão da obra, mas nunca roubam o brilho do personagem central, que continua sendo a alma do filme.

Há também uma camada melancólica que atravessa Seu Cavalcanti. A ausência do avô após sua morte não é escondida, mas incorporada como parte da narrativa, lembrando ao espectador que o cinema pode congelar momentos, mas não deter o tempo. Essa sinceridade dá ao filme uma força emocional rara, tornando-o uma verdadeira carta de amor à memória e ao poder das imagens.

No fim, Seu Cavalcanti é, para mim, um filme sobre como cada avô carrega dentro de si um universo que merece ser lembrado. Leonardo Lacca encontrou um modo de eternizar o dele, e ao fazer isso, nos convida a revisitar os nossos. É cinema que mistura invenção e afeto, ao mesmo tempo íntimo e universal. Uma obra que fala de cinema, mas também de vida, saudade e legado.

Você também pode gostar...