Sirāt

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"Sirāt": O caminho e o abismo

Em seu novo longa, Sirāt, o diretor franco-espanhol Óliver Laxe convida o espectador para uma jornada espiritual através do deserto e da dor. O que começa como a busca desesperada de um pai por sua filha desaparecida transforma-se, aos poucos, em uma travessia simbólica sobre fé, perda e transcendência. Há algo de profundamente hipnótico na maneira como Laxe filma esse percurso — uma mistura de road movie, ritual e pesadelo místico.

Luis (Sergi López) viaja com o filho adolescente, Esteban (Bruno Núñez), pelas montanhas áridas do Marrocos à procura de Marina, que desapareceu após uma rave. A trama é simples, mas o diretor a reveste de uma carga espiritual intensa, na qual a busca pela jovem torna-se também uma tentativa de reconciliação — entre pai e filho, entre o homem e o divino. O deserto, filmado com grandiosidade e inquietação, é mais que cenário: é um espelho, um espaço sagrado onde o humano se confronta com seus limites.

A palavra “sirāt”, em árabe, remete à ponte entre a Terra e o Paraíso — uma travessia tão fina quanto um fio de cabelo e tão afiada quanto uma lâmina. A metáfora atravessa toda a obra: cada personagem parece caminhar sobre essa linha tênue entre a vida e a condenação, entre o êxtase e a destruição. A rave que eles buscam é tanto um ponto de chegada quanto uma miragem, um paraíso terreno que consome e revela.

A direção de Laxe, aqui mais acessível do que em Mimosas, mantém o tom contemplativo, mas o combina com uma energia pulsante. O som ensurdecedor da música eletrônica ecoa como batimentos de um coração prestes a explodir, e o design de som funciona como um personagem à parte — uma presença viva, quase espiritual. Há momentos em que a batida se confunde com o próprio desespero de Luis, como se cada frequência fosse uma prece.

Entre visões alucinadas e encontros improváveis, Sirāt reflete sobre culpa, fé e redenção. O filme dialoga com referências que vão de Stalker a A Estrada Perdida, mas nunca perde sua identidade, mais ligada à sensorialidade do que à narrativa linear. A câmera de Laxe observa seus personagens com ternura e distância, captando tanto a poeira que os cobre quanto a luz que ainda os habita.

O elenco alterna atores experientes e rostos desconhecidos, o que reforça a sensação de autenticidade. Sergi López entrega uma performance contida e dilacerante, guiada pela culpa e pela esperança. Bruno Núñez, por sua vez, oferece uma presença silenciosa, quase mística, como se compreendesse o que o pai ainda tenta aceitar. Ambos habitam um mundo em ruínas, onde a fé é o último refúgio possível.

No fim, Sirāt não é apenas uma história sobre a perda de uma filha, mas sobre o que significa atravessar — a si mesmo, o deserto, o luto, o destino. Laxe constrói um cinema que exige entrega: é preciso caminhar junto, tropeçar na areia, sentir o peso do sol. Quando a luz se apaga, o espectador também atravessou algo — uma ponte invisível, feita de dor, beleza e som.

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