Spencer

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Um conto gótico sobre prisões invisíveis

Spencer não se propõe a ser uma biografia convencional de Diana, Princesa de Gales. Desde o primeiro aviso de que se trata de uma “fábula baseada em uma história real”, o filme de Pablo Larraín deixa claro que está mais interessado em traduzir estados mentais do que em reconstruir fatos históricos. Ambientado durante um sufocante Natal da família real em 1991, o longa transforma esse breve intervalo de tempo em um pesadelo psicológico sobre isolamento, controle e identidade.

Kristen Stewart entrega uma interpretação que foge do naturalismo e aposta no desconforto constante. Sua Diana é nervosa, fragmentada, sempre à beira de um colapso, expressando dor não apenas com palavras, mas com o corpo — nos ombros tensionados, no olhar perdido, na respiração irregular. Não é uma atuação que busca simpatia imediata, mas sim estranhamento, reforçando a sensação de que aquela mulher nunca pertenceu de fato ao espaço que ocupa.

Larraín constrói Sandringham como um labirinto opressivo, onde cada gesto é vigiado e cada tradição funciona como uma forma silenciosa de violência. Os corredores longos, os salões frios e os rituais repetitivos ganham um tom quase de filme de terror, amplificado pela trilha sonora inquietante de Jonny Greenwood. O palácio deixa de ser símbolo de poder e passa a representar uma prisão sofisticada, onde Diana lentamente se desfaz.

O roteiro usa licenças poéticas e elementos ficcionais para intensificar o conflito interno da protagonista. Personagens inventados, como a camareira vivida por Sally Hawkins, funcionam mais como extensões emocionais de Diana do que como figuras realistas. Essas escolhas afastam o filme do rigor histórico, mas reforçam sua proposta de mergulho subjetivo, ainda que, em alguns momentos, o excesso de simbolismo torne a experiência hermética.

A relação de Diana com os filhos surge como o único respiro genuíno em meio ao sufocamento. São nesses instantes que o filme abandona o tom gótico e permite pequenos lampejos de humanidade, lembrando que, por trás da figura pública, existia alguém desesperado por afeto e simplicidade. A presença de Charles, por outro lado, é fria e distante, mais uma engrenagem de um sistema incapaz de acolher fragilidade.

Assim como em Jackie, Larraín está menos interessado nos acontecimentos externos do que no impacto emocional deles sobre sua protagonista. Em Spencer, isso resulta em uma narrativa fragmentada, às vezes excessivamente estilizada, que pode afastar quem busca uma abordagem mais tradicional da história de Diana. O filme prefere o exagero e a distorção à explicação, apostando na sensação em vez da clareza.

Spencer é um retrato angustiante e deliberadamente estranho de uma mulher em ruptura com o papel que lhe foi imposto. Pode soar pretensioso ou excessivo em certos momentos, mas sua força está justamente na recusa em simplificar Diana como mártir ou santa. É um espetáculo perturbador, mais próximo de um delírio emocional do que de um drama histórico, e talvez funcione melhor quando aceito como essa fábula sombria que insiste em ser sentida, não compreendida por completo.

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