Tangerine

21.01.2016 │ 08:00

21.01.2016 │ 08:00

O sonho americano ganha contornos diferentes do tradicional quando uma câmera percorre os becos de West Hollywood (região metropolitana de Los Angeles), acompanhando duas travestis negras pelas ruas repletas de estabelecimentos com nomes em espanhol e todo tipo de imigrante por onde passam. Tangerine, do americano Sean Baker, tem menos de uma hora e meia e consegue estabelecer uma relação afetiva e crítica com um Estados Unidos pouco mostrado na TV e no cinema.
Sin-Dee acabou de sair da cadeia, é véspera da Natal e comemora com a amiga Alexandra em uma loja de donuts. Tudo vai bem até Alexandra tocar no nome de Chester, o cafetão e namorado de Sin-Dee, revelando que talvez ele esteja saindo com outras garotas, mais especificamente uma mulher branca. Rancorosa, a namorada que estava presa por conta dele, sai pelas ruas da região, afim de punir ambos pela traição. Paralelamente há o taxista armênio Razmik que além de trabalhar dirigindo pela nada glamurosa Los Angeles – afim de sustentar sua família tradicional – usa seu tempo livre pagando travestis por sexo oral. Os personagens de Tangerine se encontram e se separaram no decorrer da trama mas estão sempre intimamente ligados.
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Sean Baker filmou Tangerine totalmente com um Iphone 5S, mostrando uma nova faceta do cinema independente americano, e reafirmando que para se fazer um ótimo filme não é necessário mais que uma boa história, ótimos atores e um olhar além da camada maquiada de um assunto. Os personagens de Tangerine são revestidos de realidade, a câmera que se move junto com as atrizes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor é a película do cotidiano de mulheres transgêneras e negras que são relegadas à prostituição como tentativa de sobrevivência. Sem contar os imigrantes que elas encontram pela trajetória, mostrando que essa Califórnia está longe de ser a vendida em pacotes turísticos e está mais para um retrato cruel dos Estados Unidos como um falacioso lugar de oportunidades.
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Segundo um censo de 2013, 39% da população de West Hollywood se identificava como homossexual, isso pode ser colocado como uma dado importante da região ter fortes raízes LGBTQ, o que supostamente seria um ponto à favor da visibilidade desse grupo. Em Tangerine, Sean Baker foca numa camada dessa população ainda mais marginalizada: transexuais, em sua boa parte negras e profissionais do sexo. O filme usa a comédia e tons de leveza para pegar o espectador fundo em pequenos detalhes, como diálogos que mostram a indiferença das pessoas em relação às identidades do outro. Armênios sendo chamados de mexicanos, travestis chamados de drag queen ou mesmo um menino negro andando de skate, insinuando como se ele quisesse ser um novo Lil Wayne, mostrando que mesmo as minorias tem dificuldade de olhar para o outro com mais atenção e menos preconceito.
Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor são uma dupla incrível juntas, elas e o restante dos personagens de Tangerine lembram bastante a forma confortável como os cineastas Larry Clark e Harmony Korine faziam seu cinema de rua dos anos 90, com atores que construíam os personagens baseados em sua próprias vidas, dando ritmos documentais e denunciadores de situações pouco filmadas pelo cinema. A trilha sonora não poderia se encaixar melhor, usando hip hop e arranjos do estilo.
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Apesar de Tangerine ter pontos de comédia, é muito difícil não identificar a tensão da narrativa e é isso que torna o longa uma das obras mais interessantes do cinema alternativo americano atual. Não apenas pelo fato técnico de ter sido filmado por um celular – o que dá um arranjo ainda mais intimista para a trama – mas ainda o trabalho de atrizes trans negras mostrando a realidade das ruas, que elas infelizmente conhecem bem. Esses aspectos filmados de uma perspectiva de amizade, de sentimento e alteridade mostra que o cinema tem esse poder, de colocar nós espectadores andando no rastro de pessoas que nem conhecemos, mas que temos a capacidade de enxergar por pouco menos de 90 minutos e se sentir parte disso, por mais dolorido que seja.
Nota:

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