Verity

(2026) ‧ 1h54

Entre o suspense e o abismo do trash-chic

Ricardo Feldmann Dotto

Quando Colleen Hoover conquistou o mercado literário com Verity, seu suspense psicológico rompeu a barreira dos romances dramáticos habituais para mergulhar em um território de pura paranoia, crueldade e manipulação. Era inevitável que a adaptação cinematográfica chegasse às telas, o que ocorre agora em 2026 sob a direção de Michael Showalter e roteiro adaptado por Nick Antosca. O resultado, contudo, é um intrigante exercício de dualidades: um filme sustentado pelo carisma magnético de seu elenco principal, mas que tropeça na própria hesitação de mergulhar no abismo trash-chic que sua premissa exigia.

A trama acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades financeiras que aceita o convite irrecusável de Jeremy Crawford (Josh Hartnett) para finalizar a bem-sucedida série de livros de sua esposa, Verity Crawford (Anne Hathaway). Verity encontra-se em um estado catatônico após um misterioso e trágico acidente. Instalada na mansão da família para organizar o material de trabalho, Lowen descobre o manuscrito autobiográfico de Verity, um relato visceral, repleto de confissões sádicas e segredos sombrios que transformam a casa em uma panela de pressão psicológica. No papel, o enredo é o prato perfeito para um thriller psicossexual sufocante. No entanto, a transição para o cinema revela um conflito de tons.

O maior trunfo do longa reside, sem dúvidas, em suas atuações. Anne Hathaway entrega uma performance fascinante. Passando grande parte do filme imóvel e com o olhar vago devido à condição da personagem, Hathaway transforma o silêncio em uma ameaça palpável. Cada vez que a câmera retorna ao quarto de Verity, a tensão se renova. Quando a fachada cai e a atriz ganha liberdade para transitar entre o desespero e a frieza absoluta no terço final, ela injeta a voltagem exata que o filme tanto necessita.

Por outro lado, Dakota Johnson (Lowen) sofre com um roteiro que muitas vezes limita sua personagem a reagir passivamente aos estímulos ao redor, flertando perigosamente com sombras de papéis passados em momentos de desejo que soam forçados. Josh Hartnett, por sua vez, equilibra bem o charme e a opressão contida de Jeremy, mantendo o espectador na corda bamba da dúvida sobre sua real inocência ou conivência.

O calcanhar de Aquiles de Verity está na mão de sua direção. Michael Showalter parece oscilar entre tratar o material como um suspense sério e prestigioso e abraçar o melodrama pulp que cativou os leitores na internet. Em vários momentos, o longa aposta em jumpscares preguiçosos e escolhas estéticas datadas (como sobreposições de imagens e transições borradas) que esvaziam a loucura progressiva da história.

O que poderia ser uma dissecação visceral das rachaduras da psique feminina acaba, por vezes, esbarrando em um erotismo que se leva a sério demais, gerando tiradas e situações que beiram o inverossímil de forma involuntária. Além disso, cortes bruscos na narrativa aceleram acontecimentos que demandariam maior respiro dramático, deixando a sensação de que pontos cruciais do livro foram sacrificados em favor de um ritmo comercial ágil.

Verity está longe de ser um thriller impecável. Ele sofre de conveniências de roteiro e de uma identidade visual que nem sempre faz jus à densidade da obra original.

Ainda assim, como entretenimento adulto e sem compromisso, o filme cumpre seu papel com louvor. É o tipo de filme feito sob medida para gerar debates acalorados — e até divertidas divergências — com as luzes da sala já acesas, reavivando a eterna dúvida sobre quem manipula a realidade e quem diz a verdadeira história. Graças à força magnética de Anne Hathaway, o ingresso e a pipoca valem a pena.

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