Vidas Entrelaçadas

(2025) ‧ 1h46

11.04.2026

Entre luzes e cicatrizes

Vidas Entrelaçadas mergulha no universo da alta costura para contar uma história que, na superfície, parece sobre moda, mas que rapidamente revela ambições mais íntimas e complexas. Acompanhando três mulheres em momentos decisivos de suas vidas, o filme constrói uma narrativa que entrelaça criação artística, identidade e sobrevivência emocional em meio ao glamour de Paris.

No centro da trama está Maxine, uma diretora de cinema que adentra esse mundo com certo estranhamento, vinda de uma trajetória mais independente. Sua visão estética, marcada por elementos sombrios, cria um contraste interessante com o brilho superficial da indústria da moda. É nesse choque de perspectivas que o filme encontra uma de suas forças, ao sugerir que a criação nasce tanto da beleza quanto do desconforto.

Ao mesmo tempo, a narrativa se abre para acompanhar Ada e Angèle, ampliando o olhar sobre esse universo. A jovem modelo representa o encantamento e os perigos de um sistema que promete ascensão rápida, mas cobra um preço alto. Já a maquiadora e aspirante a escritora funciona como um elo mais reflexivo, alguém que observa e traduz em palavras as tensões e contradições daquele ambiente.

Essa estrutura fragmentada permite ao filme abordar diferentes experiências femininas, ainda que nem todas recebam o mesmo aprofundamento. Há momentos em que a costura entre essas histórias parece mais conceitual do que orgânica, criando uma sensação de distanciamento. Ainda assim, o conjunto encontra equilíbrio ao destacar pequenos instantes de vulnerabilidade e resistência.

A força do longa também está em suas interpretações, especialmente na maneira como suas protagonistas conseguem transmitir conflitos internos sem recorrer a grandes explosões dramáticas. Existe uma contenção que dialoga bem com o tom do longa, fazendo com que emoções mais intensas surjam de forma sutil, mas significativa.

Visualmente, Vidas Entrelaçadas se beneficia do cenário que escolhe. A estética da moda é explorada com elegância, mas sem cair na idealização completa. Há um esforço em mostrar tanto o espetáculo quanto os bastidores, revelando as pressões e exigências que sustentam aquele brilho. Em alguns momentos, inclusive, o filme encontra imagens de grande impacto, especialmente quando une moda e narrativa de forma mais simbólica.

Vidas Entrelaçadas é um filme que talvez funcione melhor em suas partes do que como um todo plenamente coeso. Ainda assim, há uma sensibilidade evidente na forma como aborda suas personagens e seus dilemas. Entre excessos e lacunas, o longa constrói um retrato envolvente, ainda que irregular, sobre mulheres tentando afirmar suas vozes em um mundo que insiste em moldá-las.

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AUTOR

Felipe Fornari

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