Com 39 Degraus, Alfred Hitchcock encontra uma fórmula narrativa que se tornaria uma das mais importantes de sua carreira: um homem comum, acusado de um crime que não cometeu, precisa atravessar uma sucessão de perigos para provar sua inocência enquanto tenta impedir uma conspiração muito maior. Richard Hannay entra nessa história praticamente por acaso, depois de conhecer uma misteriosa mulher durante uma apresentação em Londres. Quando ela aparece assassinada em seu apartamento, ele percebe que permanecer parado significa ser preso ou morto e parte para a Escócia seguindo as poucas pistas deixadas pela vítima.
A simplicidade dessa premissa permite que Hitchcock faça do movimento a verdadeira essência do filme. Hannay passa de trens para pontes, casas isoladas, estradas, reuniões políticas e hotéis sem que 39 Degraus perca sua fluidez. A perseguição não funciona apenas como mecanismo para produzir suspense, mas como maneira de revelar personagens e criar situações inesperadas. O roteiro parece compreender que pouco importa exatamente qual segredo está sendo procurado pelos espiões. O que realmente interessa é acompanhar Hannay tentando sobreviver enquanto cada tentativa de encontrar ajuda acaba produzindo um novo problema.

Robert Donat é fundamental para que essa estrutura funcione tão bem. Seu Hannay possui a combinação perfeita entre inteligência, ironia e vulnerabilidade, mantendo uma surpreendente leveza mesmo quando está cercado pela polícia e pelos criminosos. Hitchcock percebe que o humor não diminui necessariamente o suspense e frequentemente utiliza a própria situação desesperadora do protagonista para criar algumas das melhores piadas. A sequência em que Hannay é confundido com um candidato durante uma reunião política exemplifica perfeitamente essa habilidade de transformar perigo em comédia sem interromper o ritmo da perseguição.
A chegada de Pamela amplia ainda mais essa dinâmica. Inicialmente convencida de que Hannay é um assassino, ela representa mais um obstáculo para o protagonista até que os dois acabam literalmente presos um ao outro pelas algemas. Hitchcock explora essa situação com evidente prazer, transformando a proximidade forçada em uma combinação de irritação, humor e atração. A relação entre Robert Donat e Madeleine Carroll possui uma naturalidade que faz o romance surgir da própria aventura, em vez de parecer uma obrigação acrescentada ao suspense. Mais importante, Pamela precisa descobrir por conta própria se aquele homem merece sua confiança.
O filme também demonstra como Hitchcock já dominava a arte de apresentar informações ao espectador e depois utilizá-las de maneiras inesperadas. O detalhe do dedo ausente, o livro que impede uma bala de matar Hannay e principalmente a melodia que permanece inexplicavelmente em sua memória parecem pequenos elementos até adquirirem funções decisivas. O diretor transforma objetos, sons e informações aparentemente banais em peças de uma engrenagem narrativa extremamente precisa. Até mesmo os famosos “39 degraus” importam menos pelo que significam do que pela curiosidade que mantêm a história constantemente em movimento.

Não por acaso, 39 Degraus começa e termina em um teatro. Mr. Memory, apresentado inicialmente como uma atração popular capaz de armazenar quantidades extraordinárias de informação, retorna no desfecho como a peça que faltava para compreender toda a conspiração. O palco, espaço destinado ao entretenimento e à ilusão, torna-se também o lugar onde a verdade finalmente é revelada. Hitchcock encerra a investigação enquanto o espetáculo continua ao fundo, aproximando morte, humor e performance de uma maneira que resume perfeitamente o estranho equilíbrio tonal alcançado pelo filme.
Mais do que um dos grandes trabalhos da fase britânica de Hitchcock, 39 Degraus é praticamente o projeto arquitetônico de uma parcela importante de sua filmografia posterior. O inocente perseguido, a viagem como estrutura narrativa, a espionagem tratada como pretexto, o romance nascido da desconfiança e a combinação entre suspense e humor reapareceriam inúmeras vezes, chegando a uma de suas expressões máximas em Intriga Internacional. Mas reduzir este filme a um ensaio para obras futuras seria injusto: sua velocidade, inteligência e extraordinário senso de diversão permanecem intactos, revelando um Hitchcock que já não estava apenas descobrindo sua linguagem, mas começava a dominá-la.







