Dolores acompanha três gerações de mulheres tentando reinventar a própria vida enquanto lidam com frustrações antigas, relações frágeis e expectativas talvez grandes demais para a realidade que as cerca. O filme encontra força justamente nesse olhar íntimo sobre personagens comuns, mulheres cansadas de sobreviver apenas no automático e que enxergam em decisões arriscadas uma última possibilidade de mudança. Há uma melancolia constante atravessando toda a narrativa, mas também um afeto evidente na maneira como o longa observa suas protagonistas.
A personagem-título, interpretada por Carla Ribas, carrega boa parte desse peso emocional. Dolores é uma mulher marcada por perdas, impulsos e desejos que parecem nunca desaparecer completamente, mesmo depois da idade avançada. Sua ideia de abrir um cassino surge menos como ambição financeira e mais como tentativa desesperada de recuperar algum controle sobre a própria existência. O roteiro entende bem essa fragilidade, ainda que em alguns momentos transforme demais a personagem em símbolo de resistência, simplificando certos conflitos internos.

Ao redor dela, Deborah e Duda funcionam como extensões de um mesmo ciclo de frustrações femininas. O filme constrói paralelos interessantes entre mãe, filha e neta, sugerindo como sonhos de independência acabam frequentemente atravessados por homens ausentes, promessas vazias e contextos sociais pouco generosos. Existe um pessimismo discreto na maneira como a narrativa encara essas trajetórias, como se o futuro estivesse sempre prestes a escapar das mãos delas.
Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar apostam numa condução bastante clássica, sem grandes experimentações. A direção prefere deixar as emoções emergirem através dos rostos, dos silêncios e das conversas diretas, quase sempre explicativas. Em alguns momentos, isso funciona muito bem graças ao talento do trio principal, especialmente Carla Ribas e Naruna Costa, que conseguem transmitir sentimentos complexos mesmo quando os diálogos parecem excessivamente didáticos.
Essa escolha mais tradicional, porém, também limita parte do impacto dramático. O filme raramente permite ambiguidades ou espaços para que o espectador complete as lacunas sozinho. Quase tudo é verbalizado, explicado ou antecipado, fazendo com que certas reviravoltas percam força antes mesmo de acontecer. Há uma sensação constante de previsibilidade, como se o longa nunca quisesse se afastar demais de uma zona confortável.

Ainda assim, Dolores possui sensibilidade suficiente para manter o interesse. O carinho dedicado às personagens é perceptível em cada cena, principalmente nos pequenos momentos de intimidade cotidiana. O longa encontra beleza nas derrotas, nos tropeços e até nas ilusões cultivadas por essas mulheres. Mesmo quando suas decisões parecem equivocadas, o filme nunca as julga. Pelo contrário, existe quase um desejo de protegê-las da dureza do mundo.
Talvez seja justamente essa delicadeza que torne Dolores um bom drama, ainda que irregular. Sem reinventar estruturas ou apresentar grandes ousadias narrativas, o filme funciona pela humanidade de suas protagonistas e pela entrega do elenco. É uma obra que abraça formas antigas de contar histórias, apostando mais na empatia do que no impacto. E embora nem todos os seus caminhos emocionais convençam plenamente, permanece difícil não se envolver com essas mulheres tentando encontrar alguma esperança em meio às próprias ruínas.








