Dirigido por Julio Medem, cineasta espanhol reconhecido por obras marcadas por encontros improváveis, 8 Décadas de Amor tenta aliar uma história de amor à história política da Espanha. O filme acompanha a trajetória de Adela e Octavio, personagens que nascem no mesmo dia, 14 de abril de 1931, data da proclamação da Segunda República Espanhola, e cujas vidas permanecem entrelaçadas ao longo de noventa anos, atravessando momentos decisivos da história do país.
A proposta é ambiciosa. Divide a trama em oito capítulos correspondentes a diferentes décadas, narrando uma história de amor marcada por encontros e desencontros, que paralelamente dialoga com os acontecimentos políticos e sociais da Espanha. A Guerra Civil dos anos 30, os quarenta anos da ditadura franquista, a redemocratização (e a possiblidade do divórcio), chagando às tensões envolvendo o movimento separatista da Catalunha e à violência (fascista) entre torcidas do Real Madrid e Barcelona, até a pandemia de Covid-19. São eventos que seguem como pano de fundo das trajetórias familiares, afetivas e ideológicas de Adela e Octavio.

A história passa em torno de Octavio (Javier Rey) e Adela (Ana Rujas), que nascem e morrem no mesmo dia. Adela, criada em um ambiente ligado aos ideais republicanos, sempre desafia as normas sociais impostas pelo franquismo e pelo conservadorismo. Já Octavio, sente as contradições de uma formação vinculada ao conservadorismo e à herança fascista.
Assim, a história sugere como processos políticos coletivos se materializam em dramas individuais. Sugere, mas não avança, talvez seja esse o ponto mais crítico, de maior limitação do filme. Embora a política esteja presente em praticamente toda a narrativa, o diretor opta por uma postura de aparente equidistância diante dos conflitos históricos que apresenta, incorporados sem que o filme assuma uma posição crítica mais contundente. Enfatiza a dimensão mais sentimental, das perdas e dos afetos compartilhados.
Portanto, ao retratar o fascismo, a repressão franquista e seus desdobramentos históricos sem estabelecer uma crítica mais explícita, nos questionamos se é possível representar conflitos dessa natureza a partir de uma posição neutra. Adela, personagem construída por sua força crítica e posicionamento político, afirma, ao final, que em família não se discute política. Ou seja, o diretor parece apostar na ideia de reconciliação e equilíbrio, estratégia que se mostra insuficiente diante da gravidade dos processos históricos retratados e do contexto contemporâneo marcado pela ascensão de movimentos de extrema direita.

Se, por um lado, a arte não precisa se reduzir a uma função política ou militante, por outro, filmes que abordam regimes autoritários inevitavelmente disputam aspectos relacionados à memória e à interpretação e justiça histórica. Parece que a tentativa de equilibrar as posições políticas, deixa em aberto (e a desejar!) a discussão mais contundente sobre um passado e presente que continuam atravessados pelas marcas do autoritarismo.
Por fim, vale destacar a estética do filme. Os capítulos são filmados e plano-sequência, e a fotografia acompanha a passagem do tempo, partindo de imagens em preto e branco e formato mais fechado para o colorido, representando as décadas mais recentes. O símbolo do número oito, remete às décadas retratadas e à ideia do infinito, sugerindo que o amor e a própria história se movem em ciclos de encontros e reencontros.








