Além da Eternidade

(1989) ‧ 2h02

Entre o céu e a saudade em "Além da Eternidade"

Felipe Fornari

Além da Eternidade é um filme movido por intenções sinceras, mas que nunca consegue transformar completamente sua premissa emocional em algo realmente envolvente. Inspirado em Depois no Céu, o longa mistura romance, fantasia e drama ao acompanhar um piloto que, após morrer, retorna como uma espécie de espírito invisível para orientar seu sucessor e observar a mulher que ama seguir em frente. Existe potencial para uma história melancólica e tocante, mas o resultado acaba preso entre o sentimentalismo e uma estranha leveza que enfraquece parte de seu impacto.

Desde o início, Steven Spielberg tenta construir uma atmosfera nostálgica, quase como uma homenagem ao cinema clássico romântico das décadas de 1940 e 1950. O problema é que essa abordagem faz o filme parecer deslocado no tempo. Muitos diálogos soam artificiais demais, como se os personagens estivessem reproduzindo frases de um melodrama antigo em vez de conversando naturalmente. Isso cria certa distância emocional justamente em uma história que depende da conexão afetiva do público.

As sequências envolvendo os aviões e os incêndios florestais revelam um Spielberg interessado no espetáculo visual, mas nem sempre essas cenas funcionam dramaticamente. A ação frequentemente parece exagerada demais, transformando situações perigosas em momentos quase inverossímeis. Em vez de aumentar a tensão, o excesso de grandiosidade acaba diminuindo a sensação real de risco que deveria sustentar a narrativa.

Ainda assim, o filme encontra alguns momentos genuinamente sensíveis quando se concentra na ideia de perda e desapego. Existe algo naturalmente doloroso em acompanhar Pete observando, sem poder interferir, a aproximação entre Dorinda e Ted. O conceito de amar alguém a ponto de aceitar sua felicidade mesmo sem você possui força emocional, mas o roteiro raramente mergulha fundo o suficiente nessa dor. Muitas vezes, as cenas preferem respostas leves ou comentários espirituosos quando o silêncio teria muito mais efeito.

Holly Hunter acaba sendo um dos principais acertos do longa justamente por trazer uma presença mais concreta e emocionalmente honesta para aquele universo. Sua personagem parece pertencer a um filme mais humano e menos idealizado, o que torna suas cenas as mais convincentes da narrativa. Há uma intensidade contida em sua atuação que ajuda a equilibrar parte do tom excessivamente fantasioso do restante da obra.

O maior problema de Além da Eternidade talvez esteja na falta de urgência dramática. Mesmo lidando com morte, saudade e risco constante, o filme raramente transmite verdadeira tensão emocional. Tudo parece confortável demais, até mesmo o luto. Em vários momentos, a narrativa parece hesitar entre assumir o peso melancólico da história ou funcionar apenas como uma fantasia romântica leve, e essa indecisão enfraquece o conjunto.

No fim, Além da Eternidade permanece como uma obra curiosa dentro da filmografia de Spielberg. Há beleza em algumas imagens, sinceridade em certas emoções e uma clara admiração pelo cinema clássico que inspirou sua criação. Mas o filme nunca encontra plenamente sua própria identidade, preso entre homenagem e releitura moderna. O resultado é um romance fantasioso agradável em alguns momentos, mas emocionalmente menos poderoso do que sua premissa prometia.

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