Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.
Quase Inverno, longa de Rodrigo Grota, me fez refletir sobre várias questões enquanto espectadora, lugar que percebi ser importante também para o diretor e equipe do filme – já que em um festival temos esse privilégio de ouvir as pessoas que realizam as produções. Não que os comentários do diretor, das atrizes e outras pessoas envolvidas pudessem mudar a minha experiência com o filme, mas sim porque podemos lidar melhor com algumas das sensações primárias do que vemos em tela.

Profundamente inspirado em escritores como Tchékhov e cineastas como Bergman, Antonioni etc., Rodrigo tenta executar o trabalho muito complexo de olhar para dentro da relação familiar e seus segredos. Tão de dentro que aqui temos uma casa grande, que acompanha essas pessoas há décadas, e também acaba se tornando uma personagem do filme – uma propriedade onde as pessoas estão confinadas com a casa e ambientes internos onde acontecem os devaneios advindos da reunião dos irmãos diante do leito de morte da mãe. O filme se passa no final de um outono (como bem lembra o título) no interior do norte do Paraná. A linha temporal é a década de 1970 – apesar de quase nada demarcar essa temporalidade na direção de arte –, e essa família desmantelada pelos não ditos, e ditos abafados, tenta juntar as louças quebradas ao longo do tempo. Especialmente as três irmãs têm questões a resolver com a mãe que está morrendo e, consequentemente, entre elas. Aí que começa o apreço tão grande que o roteiro tem com as suas referências: as irmãs-personagens apostam na teatralidade corriqueira em Gritos e Sussurros, por exemplo, e às vezes, até mesmo Persona, o que acaba apagando quem são as personagens do filme em questão, deixando vislumbrar apenas suas influências. Mesmo no teatro, gostaríamos de ver as personagens fabuladas pela visão de quem as reescreve para cima do palco/na frente da câmera.
Talvez por conta do interesse de se manter firme com suas inspirações, Quase Inverno também aposta no clichê maniqueista de família: o irmão interesseiro, que vai pagar seu preço; a irmã sedutora, atriz, que aparentemente é livre, mas tem algo no passado; a esquisita, que se afasta da família, mais soturna; e a irmã virginal, com suas questões mentais. Todos querem suas redenções. Esses padrões abrem mão de elementos que poderiam sustentar o enigma necessário de uma obra de ficção. A pergunta que me rondou no final da sessão foi: pensando nas influências desse longa, por que ainda me sinto impactada quando lembro delas e aqui não?

Infelizmente, não é fácil de se responder, mas o que fica é que o longa não faz muito por si mesmo além de emular alguns motes e cenas que seriam cenas fotográficas bonitas. É muito instigante quando o diretor/roteirista diz que esse filme é resultado de tentativas de elaborar o luto pela perda da mãe, há anos atrás. Mas, para além de alguns elementos mencionados antes do filme, não conseguimos vislumbrar algo que só ele poderia nos contar. Até mesmo a ditadura militar surge esporádica e até tenta acenar por dentro dos silêncios rígidos da família. Por fim, Quase Inverno tem um bom elenco, com uma proposta narrativa bastante interessante enquanto projeto – perceptível no engajamento da equipe presente na coletiva de imprensa –, porém, ficou faltando algo que apenas o diretor/roteirista poderia contar e ficou apenas nas suas leituras.







