A Holandesinha

(2026) ‧ 1h30

“Downs just wanna have fun” é o que promete e cumpre ‘A Holandesinha’, longa paranaense dirigido entre pessoas com e sem síndrome de down

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

Boa parte da nossa experiência cinematográfica é formada de riso, choro, raiva, deslumbre diante da imagem em movimento. É até cafona invocar a lembrança das pessoas impactadas diante do trem chegando na estação, dos irmãos Lumiére. Porém, é isso mesmo, e, também, é posicionar uma parafernália diante do que será filmado. O cinema é repleto de decisões, tensões, montagens de cenas que não são filmadas em ordem, mas fazem mágica quando juntas. Assistindo A Holandesinha, de João Gabriel Kowalski e Luiza Godoi, pensei como o cinema é todo esse emaranhado de processo e deslumbre, ao mesmo tempo que é coletividade e olhar honesto às pessoas. É técnica, mas também é prática de empatia radical, algo que aprendi com o cinema de Agnès Varda.

A holandesinha é a própria Luiza, uma jovem atriz – e agora diretora – com síndrome de down. Logo no começo do longa ouvimos sua mãe dizer que estar grávida e saber que o bebê tem essa condição genética, é como comprar uma passagem para Itália e acabar descendo na Holanda: então sejamos bem-vindes à Holanda! E assim somos apresentadas a essa protagonista articulada e animada que vai realizar seu primeiro curta-metragem com uma equipe profissional. João Kowalski conta, em debate, que a ideia inicial era fazer um documentário sobre a criação da Luiza e a sua família, mas que logo se deu conta que tinha algo muito melhor em mãos: mostrar a própria cabeça dela em pleno funcionamento. A Holandesinha é sobre o processo de negociar escolhas e filmar Lágrimas de Pierrot, ao mesmo tempo que é um documentário sobre as inúmeras possibilidades de trabalhos colaborativos de acessibilidade cultural.

A Holandesinha é um documentário dividido em partes, conforme iam acontecendo as locações e, em seguida, as filmagens da saga de um pierrô (João Vitor de Paiva) que se apaixonou em um carnaval. Essa divisão dos fragmentos ajuda na condução para acompanharmos as ideias iniciais da Luiza sobre um primeiro tratamento do roteiro, que incluía muita comédia, um amor atrapalhado e um clima bem dos anos 1980. É muito interessante acompanhar a equipe técnica negociando com a diretora, sem tirar a sua autonomia ou tentar tornar o processo paternal como poderia se prever numa relação entre pessoas com e sem a condição genética. Luiza é sempre informada pelos percalços de uma realização cinematográfica, e é preciso negociar com as expectativas, ao mesmo tempo que o processo coletivo apresentado para quem assiste é divertido e coloca em jogo nossas próprias expectativas diante do esperado e do resultado de fato. No final, assistimos a edição menos com um olhar crítico de uma obra finalizada – com a qual sabemos quase nada sobre a sua produção –, e mais com o olhar fascinado pela capacidade da coletividade, da escuta e das negociações.

A Holandesinha pode ser um filme lido pela sua prática realmente encarnada de trabalhar entre pessoas criativas independente de qualquer condição, mas, mais ainda, é um filme sobre o cinema ser o melhor lugar para termos acesso a tudo que o mundo pode oferecer: sentimentos, cabeças, criatividades, alteridades, vidas, dor, amor e riso. O processo e o seu meio em si.

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