Nas Mãos de Dante é daqueles filmes que chegam cercados por uma ambição evidente. Julian Schnabel tenta transformar o romance de Nick Tosches em uma experiência que mistura thriller, drama histórico, reflexão filosófica e ensaio sobre arte, fé e violência. A proposta é fascinante no papel, especialmente ao cruzar duas linhas temporais ligadas por um manuscrito original da Divina Comédia. O problema é que, quanto mais o longa amplia seu alcance, mais perde o controle sobre aquilo que realmente deseja contar.
A alternância entre a trajetória contemporânea de Nick e a vida de Dante Alighieri oferece algumas imagens de enorme beleza, principalmente graças ao contraste visual entre as duas épocas. Enquanto o presente surge em tons monocromáticos, marcado pela corrupção, pela máfia e pelos interesses do Vaticano, o passado ganha cores vibrantes que evocam uma dimensão quase espiritual. Existe uma lógica simbólica nessa escolha estética, mas ela nunca se desenvolve com a profundidade que promete.

Oscar Isaac é, sem dúvida, o grande elo que mantém o filme de pé. Interpretando tanto Nick quanto Dante, o ator entrega duas composições distintas, encontrando nuances suficientes para impedir que os personagens pareçam apenas reflexos um do outro. Sua presença transmite convicção mesmo quando o roteiro parece caminhar por terrenos excessivamente abstratos ou simplesmente desconexos.
O elenco de apoio impressiona pela quantidade de nomes conhecidos, mas poucos realmente encontram espaço para construir personagens memoráveis. Martin Scorsese surge em uma participação pequena, porém carregada de autoridade, enquanto Gerard Butler abraça o exagero de seu mafioso com uma energia divertida. Já outros intérpretes acabam presos a figuras superficiais, cujos diálogos frequentemente soam mais preocupados em parecer profundos do que em comunicar alguma ideia consistente.
Essa é justamente a principal limitação de Nas Mãos de Dante. Schnabel levanta questões interessantes sobre a relação entre criação artística, religião e poder, mas abandona quase todas antes que possam amadurecer. O filme constantemente aponta para caminhos promissores apenas para desviá-los em novas subtramas, digressões ou cenas que parecem existir apenas por sua excentricidade, comprometendo o ritmo e tornando sua longa duração ainda mais perceptível.

Ainda assim, seria injusto dizer que a experiência é completamente frustrante. Há momentos isolados que despertam genuíno fascínio, seja pela força das imagens, pela fotografia elegante ou pelas reflexões que surgem em meio ao caos narrativo. É um filme que claramente nasce da visão muito particular de seu diretor, sem qualquer preocupação em se adequar às convenções do cinema comercial, ainda que isso também o torne frequentemente hermético e autocentrado.
No fim, Nas Mãos de Dante impressiona mais pelo tamanho de sua ambição do que pelos resultados que alcança. É uma obra irregular, repleta de ideias instigantes, mas incapaz de organizá-las em um conjunto verdadeiramente envolvente. Para alguns espectadores, essa ousadia será suficiente para justificar a viagem; para outros, ficará a sensação de assistir a um grande quebra-cabeça cujas peças jamais conseguem formar uma imagem completa.








