Apenas Coisas Boas

(2025) ‧ 1h44

O amor como fantasia e ferida

Felipe Fornari

Apenas Coisas Boas constrói um universo onde realidade e desejo parecem existir em constante conflito. Ambientado no interior de Goiás, o filme acompanha o encontro entre Antônio e Marcelo, dois homens solitários que encontram no outro uma possibilidade de transformação. Mais do que uma simples história de amor, a obra de Daniel Nolasco utiliza essa aproximação para criar um espaço onde masculinidade, afeto e fantasia se misturam.

Desde os primeiros minutos, fica claro que o filme não busca uma representação naturalista daquele cenário. A paisagem rural e os códigos associados ao homem do campo são filtrados por uma visão profundamente estilizada, criando uma espécie de faroeste queer brasileiro. As referências visuais e os símbolos de virilidade aparecem menos como reprodução do mundo real e mais como construção de um imaginário próprio, onde o desejo ocupa o centro da narrativa.

A relação entre Antônio e Marcelo cresce com uma intensidade quase mítica. O cuidado que surge após o acidente do motoqueiro rapidamente se transforma em paixão, mas o filme está mais interessado naquilo que esse encontro desperta nos personagens do que em seguir uma estrutura romântica tradicional. Eles carregam suas próprias solidões e encontram no outro uma forma de romper, ainda que temporariamente, com vidas marcadas pelo isolamento.

Um dos maiores méritos de Apenas Coisas Boas está na maneira como filma o desejo. O longa não trata a intimidade como elemento de choque ou transgressão gratuita, mas como parte natural da experiência desses personagens. Os corpos, os gestos e os momentos de aproximação são registrados com uma sensibilidade que transforma o erotismo em uma extensão do afeto, sem separar amor e sexualidade como se fossem opostos.

A construção visual também é um dos grandes destaques. A fotografia transforma espaços vazios e paisagens abertas em reflexos emocionais dos protagonistas, reforçando a sensação de que aquele lugar existe quase como um território isolado do mundo exterior. Há uma elegância nas composições e no uso da câmera que faz o filme se aproximar mais de uma fábula sobre desejo do que de um drama realista.

FOTO 2

A mudança de tom na segunda metade pode dividir opiniões. Ao abandonar parte da delicadeza inicial e assumir caminhos mais misteriosos, o longa perde um pouco da força construída anteriormente. A nova fase traz outras possibilidades interessantes, mas também torna a conexão com Antônio mais distante, deixando algumas escolhas narrativas menos envolventes do que poderiam ser.

Ainda assim, Apenas Coisas Boas é um filme que se destaca pela coragem de criar seu próprio universo e por buscar novas formas de representar afetos LGBTQIAPN+ no cinema brasileiro. Mesmo quando seus caminhos se tornam mais irregulares, o longa permanece visualmente marcante e cheio de personalidade. É um retrato de amor, desejo e solidão que prefere a imaginação ao realismo e encontra beleza justamente nessa liberdade.

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