Nós Acreditamos em Vocês

(2025) ‧ 1h18

Quando a justiça não escuta: a luta de uma mãe em "Nós Acreditamos em Vocês"

Daniela de Oliveira Pires

Nós Acreditamos em Vocês, com direção e roteiro de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, é um drama belga sobre uma mãe que luta de forma determinada e incansável pela guarda de seus dois filhos, enquanto enfrenta a hostilidade e a desumanidade de um sistema judicial cruel. O filme recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025.

Uma curiosidade é que Charlotte Devillers, uma das roteiristas e diretoras, trabalhou na área da saúde, atuando diretamente com vítimas de abuso. Isso faz com que, de alguma maneira, a diretora contribua não somente como profissional do cinema, mas também como alguém que enfrentou diretamente as dores daqueles que passam pelos tribunais de proteção à infância e à adolescência.

A tríade composta pela fotografia de Pépin Struye, a montagem de Nicolas Bier e a direção de arte de Mathilde Lejeune cria uma atmosfera judicial marcada pela assepsia, estranheza e indiferença diante das dores e dos dilemas das vítimas envolvidas no processo.

O filme se passa praticamente em um único ambiente, a sala de audiência, provocando no espectador um misto de desconforto e indignação, elementos necessários para compreendermos a complexidade dos temas abordados. Nesse aspecto, o longa nos faz questionar o tempo todo: a justiça pode condenar antes da divulgação da sentença?

Alice, uma mulher de 40 anos interpretada pela atriz Myriem Akheddiou, enfrenta de forma visceral e definitiva um drama que se estende há mais de dois anos. Diante de uma juíza, ela precisa equilibrar sua intensa emoção com a necessidade de manter o foco, a racionalidade e o autocontrole. Em síntese, ela não tem o direito de errar, pois, no limite, o futuro de sua família, particularmente de seus filhos, Etienne (Ulysse Goffin) e Lila (Adèle Pinckaers) está em jogo.

Seu maior desafio é fazer com que suas demandas e a tragédia de sua família sejam escutadas e acolhidas por um sistema judiciário que, a princípio, silencia sobre o bem-estar das crianças, questionando a postura de Alice, enquanto, por outro lado, o pai acusado recebe um tratamento distinto, próximo da benevolência, em uma tentativa de preservar sua reputação.

Ao acusar o pai das crianças de crimes graves, Alice entra em uma batalha na qual a proteção dos filhos deveria estar no centro das preocupações. No entanto, sua própria conduta passa a ser colocada em julgamento.

A potência da produção está em mostrar que denunciar violações e abusos é um ato de coragem e resistência. Ao assumir uma posição contrária à violência sistêmica, abre-se a possibilidade de romper com ciclos que tradicionalmente colocam em dúvida a palavra das crianças, das mulheres e das pessoas em situação de vulnerabilidade.

A produção reafirma a necessidade de dar voz àqueles e àquelas que são vítimas de sociedades violentas, patriarcais e abusivas. O filme nos convoca a refletir sobre a importância da escuta e do olhar atento para nossas crianças, protegendo-as, reparando violações e promovendo uma justiça mais humana e empática. Resta saber se Alice conseguirá dar voz às dores e às cicatrizes que seus filhos carregam, que são marcas definitivas em suas trajetórias, antes que seja tarde demais.

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