A Fanfarra

(2024) ‧ 1h43

31.07.2025

"A Fanfarra": Uma harmonia possível entre irmãos e classes

A Fanfarra se vale de uma fórmula já conhecida do cinema europeu, em especial aquele que busca conciliar o drama social com uma leveza emocional acessível. Mas, mesmo trafegando por caminhos previsíveis, o longa dirigido por Emmanuel Courcol e Édouard Bergeon encontra frescor e humanidade ao contar a improvável aproximação entre dois irmãos de mundos completamente distintos — unidos por um laço sanguíneo recém-descoberto, pela música e por uma urgência médica.

Benjamin Lavernhe dá vida a Thibaut, um maestro respeitado que, ao ser diagnosticado com leucemia, descobre que é adotado e parte em busca de um irmão biológico que talvez possa lhe salvar a vida. Esse irmão é Jimmy, interpretado com ótimo timing por Pierre Lottin, um operário de fábrica do interior da França, trombonista de uma fanfarra local em vias de extinção. A partir desse encontro forçado pelas circunstâncias, o filme desenvolve uma delicada crônica sobre diferenças de classe, reconexão e escolhas de vida.

A atuação de Lavernhe se ancora na contenção emocional de alguém habituado ao controle, tanto na regência quanto na vida pessoal. Já Lottin assume um carisma mais expansivo, mesmo que seu humor ácido seja logo substituído por uma postura mais melancólica diante do iminente fechamento da fábrica em que trabalha. A química entre os dois funciona dentro da proposta do roteiro, que aposta num “bromance” contido, mas eficaz, amparado por uma série de metáforas musicais.

Não há surpresas quanto à trajetória narrativa: logo percebemos que Thibaut, além de buscar um transplante, encontrará naquele lugar e naquele irmão um tipo de verdade que sua vida meticulosamente estruturada havia deixado de lado. Da mesma forma, o arco de Jimmy caminha para a revelação de um talento negligenciado e para a possibilidade de redenção coletiva, encarnada na tentativa de salvar a fanfarra da cidade. Há ecos evidentes de filmes como Ou Tudo ou Nada e O Som do Coração — obras que também investem no poder agregador da música diante de contextos adversos.

Mesmo que alguns desenvolvimentos pareçam apressados — como o apagamento da vida emocional de Thibaut ou a rápida aceitação entre os personagens —, o filme mantém um equilíbrio delicado entre emoção e contenção. O roteiro é eficiente ao explorar os contrastes sociais e afetivos entre os protagonistas, evitando o sentimentalismo excessivo e preferindo uma abordagem que sugere mais do que escancara.

A direção de Courcol encontra bons momentos nas cenas com a fanfarra, que funcionam tanto como respiro cômico quanto como símbolo de resistência comunitária. A música preenche os silêncios entre os irmãos e entre as classes, oferecendo ao filme uma trilha sonora que reforça a ideia de conexão por meio da arte. A sequência do concerto final, embora previsível, é conduzida com sinceridade e encerra a narrativa de maneira satisfatória, ainda que sem grandes ousadias.

No fim das contas, A Fanfarra emociona sem forçar, diverte sem perder o foco e entrega uma história de reconciliação que, mesmo não reinventando a roda, sabe exatamente onde quer chegar. É um filme sobre escuta — dos sons, dos silêncios e, sobretudo, do outro — que se permite tocar o espectador com sua melodia suave e consciente.

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AUTOR

Felipe Fornari

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