A Noite de Alaíde

(2026) ‧ 1h40

Uma tímida introdução a uma das maiores vozes do Brasil

Melissa Pasqualli

A Noite de Alaíde entende que a melhor forma de homenagear Alaíde Costa é não tentar encaixá-la em nenhuma definição. O filme retrata uma artista que nunca coube nas expectativas da música de seu tempo e encontra nessa autenticidade sua maior beleza. Há algo de muito bonito em acompanhar alguém que nunca precisou abrir mão de quem era para existir.

Visualmente, a direção faz escolhas interessantes. Os recursos gráficos criam a estética das histórias em quadrinhos e ajudam a construir uma atmosfera de memória, quase como páginas de um álbum sendo revisitadas. Produções de época costumam esbarrar nas cifras altas de orçamento, especialmente em cenas externas, e Liliane Mutti encontra soluções criativas para contornar esse desafio.

O que pesa contra a obra é a ausência de conflito. O roteiro é confortável demais em admirar a protagonista e deixa de explorar com profundidade as tensões, dilemas e contradições que poderiam tornar a trans mais complexa. Em vários momentos, fica a sensação de que o texto toca a superfície onde havia espaço para mergulhar fundo.

Mas, talvez esse nunca tenha sido seu objetivo. O filme funciona menos como uma dramática biografia e mais como um convite. Um primeiro encontro com uma artista que merece ser descoberta por uma nova geração. Também há delicadeza na forma como retrata seus relacionamentos, especialmente as amizades e os laços familiares, com destaque para a dinâmica entre Alaíde e Johnny Alf.

Ao final, fica a impressão de que aprendemos menos sobre Alaíde do que gostaríamos, mas saímos com uma vontade enorme de ouvir sua discografia. E, no fim das contas, talvez esse seja o maior mérito de A Noite de Alaíde: despertar a curiosidade por uma artista cuja obra sempre falou mais alto do que qualquer tentativa de defini-la.

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