Lista de Desejos para Superagüi

(2026) ‧ 1h12

Desejos à deriva

Felipe Fornari

Há lugares em que a passagem do tempo parece obedecer a outra lógica. Em Lista de Desejos para Superagüi, Pedro Giongo encontra na ilha paranaense um território marcado justamente por essa impressão de permanência: as estações mudam, a pesca abre e fecha, os dias avançam, mas determinadas dificuldades continuam onde sempre estiveram. Sem transformar a comunidade em curiosidade exótica ou cenário paradisíaco, o documentário observa um modo de vida atravessado pela contradição entre habitar uma região protegida e enfrentar, dentro dela, uma constante sensação de abandono.

É nesse contexto que Martelo surge como uma espécie de fio condutor. Aos 70 anos, o pescador tenta conquistar a aposentadoria depois de uma vida inteira de trabalho, enfrentando uma burocracia que parece incapaz de reconhecer aquilo que seu corpo e sua rotina tornam evidente. Sua trajetória oferece ao filme um conflito concreto, mas Giongo evita transformá-lo no protagonista absoluto. Ao redor dele existem outros moradores, outras atividades e pequenos acontecimentos que impedem Lista de Desejos para Superagüi de se tornar apenas a história individual de alguém buscando um direito.

Essa escolha revela uma das principais qualidades do longa: a proximidade construída com seus personagens sem convertê-los em objetos de estudo. A câmera está presente, e o filme nunca tenta esconder completamente essa condição, mas existe intimidade suficiente para que os gestos cotidianos encontrem espaço diante dela. Giongo prefere acompanhar conversas, trabalhos, esperas e momentos aparentemente banais, permitindo que Superagüi seja compreendida através de quem vive ali, e não por explicações externas destinadas a organizar aquela realidade para o espectador.

Há algo particularmente interessante na maneira como o filme contrapõe a preservação ambiental às necessidades daqueles que dependem daquele território para sobreviver. A proteção da natureza, evidentemente necessária, adquire uma dimensão mais complexa quando restrições à pesca e ao uso da terra atingem diretamente uma população que construiu sua existência naquele espaço. Lista de Desejos para Superagüi não transforma essa questão numa disputa simplista entre certos e errados. Prefere registrar o paradoxo de uma comunidade que vive cercada por uma riqueza natural extraordinária enquanto encontra dificuldades para garantir condições básicas para permanecer nela.

Visualmente, o documentário encontra beleza nessa suspensão. A fotografia de Renato Ogata trabalha com planos cuidadosamente compostos, contemplando águas, vegetação, casas e rostos sem pressa, enquanto pequenas interferências lúdicas quebram ocasionalmente o naturalismo. A própria lista de desejos de Martelo sintetiza muito bem essa relação entre concreto e imaginário: ao lado de necessidades materiais aparecem pedidos tão amplos quanto felicidade ou a vontade de recuperar algo que ficou no passado. Aos poucos, esses desejos deixam de pertencer somente ao pescador e passam a representar uma comunidade dividida entre permanecer, partir e recuperar uma vida que talvez já não possa existir da mesma maneira.

É justamente nessa serenidade que também reside a principal limitação do longa. O rigor formal e o ritmo deliberadamente paciente acabam nivelando acontecimentos que poderiam possuir pesos dramáticos distintos. Mesmo situações potencialmente decisivas são absorvidas pela mesma cadência contemplativa, fazendo com que a experiência permaneça emocionalmente distante em alguns momentos. A escolha é coerente com a proposta, mas também torna Lista de Desejos para Superagüi excessivamente uniforme, como se o filme estivesse tão comprometido em respeitar o tempo daquele espaço que hesitasse em tensioná-lo cinematograficamente.

Ainda assim, existe força nessa recusa ao espetáculo. Lista de Desejos para Superagüi encontra significado justamente naquilo que demora a mudar e nas pessoas obrigadas a continuar esperando enquanto o mundo decide o que pode ou não ser feito no território onde vivem. Pedro Giongo constrói um documentário sensível, visualmente cuidadoso e consciente da posição de sua câmera, mesmo que sua contemplação por vezes se transforme em distanciamento. Entre uma canoa desejada, uma aposentadoria aguardada e a esperança impossível de que tudo volte a ser como antes, permanece a impressão melancólica de uma comunidade tentando imaginar seu futuro sem precisar abandonar aquilo que chama de lar.

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