Eu Sou Frankelda

(2025) ‧ 1h54

Entre monstros e memórias: a força de "Eu Sou Frankelda"

Felipe Fornari

Em uma época em que tantas animações parecem seguir caminhos cada vez mais previsíveis, Eu Sou Frankelda surge como uma obra que entende o encanto do artesanal e da imaginação sem limites. Primeiro longa-metragem mexicano produzido inteiramente em stop-motion, o filme dos irmãos Roy e Arturo Ambriz transforma uma história de origem em uma grande fantasia sobre criação artística, rejeição e a necessidade de encontrar um espaço próprio no mundo.

Acompanhamos Francisca Imelda, uma jovem escritora do século XIX que sonha em publicar suas histórias sombrias, mas encontra uma sociedade incapaz de enxergar valor na sua criatividade. Ridicularizada por editoras e pela própria família, ela acaba mergulhando em seu próprio universo ficcional, assumindo a identidade de Frankelda e descobrindo que seus personagens possuem vidas, conflitos e desejos muito além do que ela imaginava.

O grande mérito do filme está na forma como transforma uma premissa simples em uma mitologia rica e cheia de detalhes. Ao criar o reino de Topus Terrentus, a produção apresenta disputas de poder, criaturas fantásticas e personagens que questionam constantemente os limites entre realidade e fantasia. Embora a quantidade de informações possa parecer excessiva em alguns momentos, essa construção de mundo dá ao longa uma personalidade própria e faz com que tudo pareça parte de um universo muito maior.

A influência de grandes nomes do fantástico é evidente, mas Eu Sou Frankelda nunca se limita a reproduzir referências. A estética conversa com o trabalho de artistas como Guillermo del Toro, misturando horror, beleza e estranheza em uma mesma imagem. A animação também evoca pinturas surrealistas e clássicos da fantasia, criando cenários que parecem ter saído diretamente de um livro antigo ganhando vida diante dos nossos olhos.

Tecnicamente, o filme é um verdadeiro deslumbre. O cuidado com cada boneco, textura e cenário revela uma produção que valoriza as imperfeições e o caráter físico do stop-motion. Materiais diferentes, movimentos expressivos e uma câmera dinâmica fazem com que cada quadro tenha algo novo para revelar, reforçando a sensação de que estamos diante de uma obra construída manualmente com enorme dedicação.

Além da parte visual, a força emocional da história vem justamente do conflito interno de Frankelda. Mais do que uma aventura fantástica, o longa fala sobre o medo de não ser ouvido e sobre como artistas muitas vezes precisam enfrentar o mundo antes de encontrarem confiança na própria voz. Sua jornada de aceitação transforma a fantasia em uma metáfora poderosa sobre liberdade criativa.

Com momentos que lembram tanto os grandes musicais de animação quanto os contos mais sombrios do gênero, Eu Sou Frankelda consegue equilibrar encanto e melancolia sem perder sua identidade. É uma produção inventiva, cheia de personalidade e que prova como o cinema de animação ainda pode surpreender quando se arrisca a criar mundos completamente novos. Um começo promissor para uma personagem que parece ter muitos outros mistérios para contar.

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