Honestino

(2025) ‧ 1h25

Entre a memória e o silêncio

Rapha Ritchie

Preso, torturado e desaparecido pela ditadura militar brasileira aos 26 anos, Honestino Guimarães permanece sem que seu corpo tenha sido encontrado, transformando sua trajetória em um símbolo de uma violência de Estado que ainda resiste ao esquecimento. Em vez de reconstruir essa história por meio de uma cinebiografia convencional, o longa opta por reunir imagens de arquivo, depoimentos, cartas, poemas e pequenas dramatizações que tentam preencher os vazios deixados justamente pela ausência de registros e pelas marcas do apagamento institucional.

Essa combinação aproxima Honestino muito mais do documentário do que da ficção. As cenas encenadas surgem de maneira pontual, servindo para dar corpo às cartas e aos relatos, enquanto Bruno Gagliasso assume uma representação discreta do líder estudantil, sempre subordinada ao material histórico que conduz a narrativa. Sua presença nunca desloca o foco dos documentos ou das testemunhas, embora a alternância constante entre arquivos e dramatizações nem sempre encontre uma fluidez capaz de aproximar emocionalmente o espectador daquela trajetória interrompida.

Também não existe qualquer tentativa de disfarçar o posicionamento político adotado pelo documentário. Honestino é apresentado como um militante de esquerda profundamente envolvido com o movimento estudantil, com a União Nacional dos Estudantes e com os debates de sua geração, enquanto a repressão da ditadura aparece sob uma perspectiva assumidamente crítica. Essa escolha torna transparente o ponto de vista da narrativa, mas também faz com que a experiência dependa, em certa medida, da disposição do público em acompanhar essa leitura histórica e política.

As cartas, os poemas e os depoimentos de familiares e antigos companheiros ajudam a retirar Honestino da condição de personagem exclusivamente simbólico, revelando um jovem cuja existência não pode ser resumida ao próprio desaparecimento. Ainda assim, o filme parece confiar mais na relevância histórica de seu protagonista do que na elaboração cinematográfica capaz de transformar esse material em uma experiência verdadeiramente envolvente. O resgate dessa memória possui evidente importância política e documental, mas a maneira como ela é organizada nem sempre estabelece uma conexão que vá além do interesse pelo tema em si.

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