Akira

(1988) ‧ 2h04

A fúria juvenil em um futuro à beira do colapso

Felipe Fornari

Em Akira, Katsuhiro Ôtomo constrói uma Neo Tóquio marcada pela violência, pela desigualdade e pela sensação permanente de que algo está prestes a explodir. Trinta anos depois da destruição da antiga cidade, a nova metrópole convive com protestos, corrupção, repressão policial e gangues de adolescentes que transformam as ruas em território de disputa. É nesse cenário que Kaneda e Tetsuo, dois amigos unidos por uma relação tão intensa quanto problemática, acabam envolvidos em forças que ultrapassam completamente aquilo que conseguem compreender.

A amizade entre os dois é um dos grandes motores do filme. Kaneda é impulsivo, confiante e ocupa naturalmente a posição de liderança, enquanto Tetsuo carrega um ressentimento cada vez mais evidente diante de sua própria fragilidade. Quando um acontecimento inesperado desperta poderes extraordinários em Tetsuo, a antiga relação de dependência começa a se inverter. A ficção científica, então, deixa de ser apenas uma questão de poderes sobrenaturais e passa a representar uma transformação psicológica: aquilo que Tetsuo sempre desejou possuir se torna justamente aquilo que ameaça destruí-lo.

A extraordinária animação de Akira é fundamental para essa experiência. A cidade é construída com uma riqueza de detalhes impressionante, repleta de letreiros, veículos, multidões, fumaça e luzes que fazem Neo Tóquio parecer simultaneamente viva e apodrecida. As perseguições de motocicleta, as explosões e as manifestações de poder possuem uma fluidez que ainda impressiona, mas o mérito não está apenas na técnica. Cada movimento parece contribuir para a sensação de caos e instabilidade de um mundo em que ninguém realmente está no controle.

Por trás do espetáculo, existe uma crítica social bastante contundente. Ôtomo coloca lado a lado juventude marginalizada, autoritarismo militar, fanatismo religioso, corrupção política e os efeitos de uma sociedade que parece incapaz de oferecer qualquer perspectiva aos seus jovens. A cidade tecnologicamente avançada não representa necessariamente progresso; pelo contrário, quanto mais sofisticada ela se torna, mais evidentes parecem suas contradições. O filme também não transforma seus adolescentes em heróis idealizados: Kaneda e seus companheiros são violentos, inconsequentes e frequentemente incapazes de compreender as consequências de suas próprias ações.

Tetsuo concentra boa parte dessas contradições. Seu desejo de deixar de ser o garoto frágil que precisa da proteção de Kaneda transforma-se em uma busca desesperada por autonomia, mas o poder que finalmente conquista não produz liberdade. Ao contrário, amplia suas inseguranças, seus traumas e sua incapacidade de controlar a própria existência. Kaneda, por sua vez, precisa abandonar gradualmente a postura de líder que acredita conseguir resolver tudo na força. A relação entre os dois transforma o espetáculo cyberpunk em um drama essencialmente juvenil sobre amizade, ressentimento, identidade e pertencimento.

Também é significativo que o filme não ofereça respostas fáceis para sua dimensão fantástica. Os experimentos com crianças, os poderes psíquicos, Akira e a própria transformação de Tetsuo conduzem a uma narrativa que deliberadamente deixa algumas explicações em segundo plano. Tentar organizar cada elemento como se houvesse uma única interpretação definitiva pode diminuir a força da experiência. O que importa é como esses elementos se relacionam com a ideia de poder, destruição e renascimento, enquanto a própria Neo Tóquio parece caminhar constantemente para uma nova ruptura.

É justamente essa combinação que faz de Akira uma obra tão marcante. O filme é simultaneamente um espetáculo de animação, uma ficção científica distópica, um retrato da juventude e uma reflexão sobre tecnologia, poder e violência. Mesmo décadas depois, sua estética continua influente e sua visão de uma sociedade tecnologicamente avançada, mas socialmente fragmentada, permanece inquietantemente atual. Mais do que uma história sobre o fim de uma cidade, Akira é uma história sobre aquilo que pode nascer quando uma sociedade tenta reconstruir seu futuro sem jamais resolver as feridas do passado.

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