Mary

(1931) ‧ 1h18

Uma refilmagem que perde força no caminho

Felipe Fornari

Em Mary, Alfred Hitchcock revisita praticamente cena por cena a história de Assassinato!, seu thriller britânico de 1930, desta vez transportando a trama para uma produção em língua alemã. A experiência nasce de um acordo entre os produtores dos dois países e tem uma particularidade interessante: Hitchcock conseguiu manter as mesmas locações utilizadas no filme original, reproduzindo também boa parte de sua decupagem. O resultado, portanto, funciona quase como um espelho de seu antecessor, permitindo observar como a mesma narrativa se comporta em outra língua e com outro elenco.

A história acompanha Mary Baring, uma atriz encontrada atordoada ao lado do corpo de uma colega assassinada e posteriormente condenada pelo crime. Convencido de que ela pode ser inocente, um dos jurados decide investigar o caso por conta própria e encontrar o verdadeiro responsável. A premissa continua oferecendo ao diretor possibilidades interessantes de trabalhar com teatro, aparências, identidades e representação, temas particularmente adequados à sua filmografia. O problema é que Mary parece muito mais interessado em reproduzir uma fórmula já pronta do que em encontrar uma nova maneira de explorá-la.

A semelhança com Assassinato! é, ao mesmo tempo, sua maior curiosidade e sua principal limitação. Hitchcock preserva enquadramentos, movimentos e situações com tamanha proximidade que a produção frequentemente parece uma cópia em outra língua, e não propriamente uma nova interpretação do material. Há competência na reconstrução visual, mas pouca vitalidade. Em vez de descobrir novas possibilidades dentro da história, o diretor parece cumprir uma obrigação contratual, e essa sensação de tarefa mecânica acompanha boa parte da projeção.

O maior obstáculo está na montagem. Os cortes são frequentemente bruscos, algumas transições parecem eliminar informações importantes e a utilização insistente de fades interrompe o fluxo das cenas em vez de contribuir para ele. A narrativa acaba adquirindo uma aparência fragmentada, como se partes do filme simplesmente estivessem faltando. Para uma história de investigação, em que cada detalhe deveria ajudar a construir progressivamente o mistério, essa falta de continuidade prejudica especialmente a compreensão e reduz a tensão.

A própria barreira linguística parece ter contribuído para o resultado irregular. Hitchcock ainda estava distante de dominar o alemão o suficiente para dirigir com a mesma segurança que demonstrava em inglês, e algumas soluções humorísticas e diálogos precisaram ser adaptados ou improvisados. A diferença não é apenas verbal: ela interfere no ritmo das interpretações e na relação entre os atores e a câmera. Olga Tschechowa conduz a protagonista com presença, mas o conjunto raramente alcança a espontaneidade necessária para fazer o suspense ganhar vida.

Ainda assim, há algo fascinante em observar Mary como documento de uma fase de experimentação do cinema sonoro. Hitchcock estava tentando compreender as possibilidades de trabalhar simultaneamente com diferentes idiomas e elencos, enquanto a indústria ainda descobria como lidar com as limitações técnicas impostas pelo som. A experiência também evidencia o quanto a linguagem visual de Hitchcock já estava suficientemente definida para sobreviver, pelo menos parcialmente, à troca de atores e idioma. Mesmo quando o filme falha, é possível reconhecer o cineasta por trás dos enquadramentos e das situações.

Como experiência cinematográfica isolada, porém, Mary está longe de ser uma obra essencial. Seu interesse está principalmente na comparação com Assassinato! e na oportunidade de acompanhar um momento pouco comum da carreira de Hitchcock, quando o diretor precisou reconstruir seu próprio filme em outra língua e sob condições bastante particulares. A reprodução quase literal da obra anterior evidencia mais suas limitações do que suas possibilidades, fazendo desta uma curiosidade histórica valiosa, mas uma experiência consideravelmente menos envolvente do que aquela que lhe deu origem.

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