Assassinato!

(30) ‧ 1h44

A verdade por trás do espetáculo

Felipe Fornari

Em Assassinato!, Alfred Hitchcock retorna ao suspense policial para construir uma investigação em que a verdade parece estar escondida não apenas entre pistas, mas também entre performances. Adaptando o romance de Clemence Dane e Helen Simpson, o diretor coloca no centro da narrativa Sir John Menier (Herbert Marshall), um renomado ator e produtor teatral que, após participar do júri responsável por condenar Diana Baring (Norah Baring) pelo assassinato de uma colega de elenco, passa a acreditar que ela foi injustamente acusada. Convencido de sua inocência, decide conduzir uma investigação própria, transformando sua experiência nos palcos em ferramenta para desvendar o crime.

A premissa permite que Hitchcock explore um tema recorrente em sua filmografia: a dificuldade de distinguir aparência e realidade. Sir John compreende que atuar significa assumir identidades, esconder intenções e convencer os outros de uma versão dos fatos, habilidades que se revelam surpreendentemente úteis durante a investigação. O protagonista passa a observar pessoas como se todos estivessem permanentemente representando um papel, enquanto o espectador também é levado a desconfiar de cada gesto e de cada palavra. O crime torna-se menos importante do que a encenação construída ao seu redor.

Essa aproximação entre teatro e vida atravessa todo o filme. Os bastidores dos espetáculos, os ensaios e os camarins não funcionam apenas como cenários, mas como espaços onde identidades podem ser criadas, ocultadas ou reinventadas. Hitchcock demonstra fascínio por personagens que transitam entre máscaras sociais e papéis performáticos, sugerindo que a própria investigação criminal depende, em certa medida, da capacidade de interpretar corretamente aquilo que cada pessoa escolhe mostrar ao mundo. Não por acaso, a resolução do mistério exige uma verdadeira encenação para provocar o culpado.

Embora o suspense funcione de maneira eficiente, Assassinato! revela algumas limitações típicas do início da carreira sonora de Hitchcock. Certos trechos avançam lentamente e a investigação nem sempre mantém o mesmo nível de tensão, privilegiando longas conversas e explicações em detrimento do dinamismo visual que marcaria seus trabalhos posteriores. Ainda assim, o diretor encontra momentos de grande criatividade, especialmente ao utilizar recursos sonoros para traduzir os pensamentos do protagonista e demonstrar como o cinema falado podia expandir as possibilidades narrativas sem abandonar a força da imagem.

Herbert Marshall conduz o filme com elegância e inteligência, interpretando Sir John como um homem cuja curiosidade supera sua confiança nas instituições. Em vez de aceitar passivamente o veredito do tribunal, ele questiona as certezas da justiça e coloca em xeque a própria autoridade do sistema. Hitchcock, mais uma vez, demonstra pouco interesse por figuras oficialmente responsáveis pela verdade; são indivíduos movidos pela dúvida, e não pela autoridade, que acabam se aproximando dos fatos. A investigação nasce justamente da incapacidade de aceitar uma resposta aparentemente definitiva.

Vista hoje, a construção do antagonista merece um olhar crítico. Algumas das motivações e características atribuídas ao verdadeiro culpado refletem concepções sociais e culturais próprias da época, especialmente na maneira como diferenças de identidade são associadas ao mistério e ao desvio moral. São elementos que envelheceram mal, mas que também ajudam a compreender o contexto histórico em que o filme foi produzido, sem apagar os méritos de sua construção dramática e da habilidade de Hitchcock em manipular expectativas.

Mesmo distante da sofisticação de suas obras-primas, Assassinato! representa um passo importante na consolidação da linguagem hitchcockiana. O interesse pela culpa, pelos erros da justiça, pelas identidades ambíguas e pela teatralidade das relações humanas já aparece claramente delineado, assim como a disposição do diretor em experimentar as possibilidades do cinema sonoro. É um suspense envolvente, repleto de boas ideias e marcado por uma atmosfera em que todos parecem representar um papel, até que a verdade finalmente invade o palco.

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