Ricos e Estranhos

(1931) ‧ 1h50

Uma viagem pelo desgaste do amor

Felipe Fornari

Em Ricos e Estranhos, Alfred Hitchcock abandona momentaneamente o suspense mais convencional para acompanhar um casal de classe média que vê uma herança inesperada transformar completamente sua rotina. Fred e Emily Hill acreditam que o dinheiro finalmente lhes permitirá viver as experiências que sempre desejaram, mas a viagem de luxo rapidamente revela que a prosperidade também pode expor aquilo que havia de mais frágil em seu casamento. O que começa como uma fantasia de liberdade acaba se tornando uma espécie de teste para a relação.

A primeira parte do filme é particularmente interessante justamente por observar a vida cotidiana antes da aventura. Hitchcock acompanha Fred deixando o trabalho e retornando para casa com uma atenção quase documental, recorrendo a imagens que lembram a comédia física do cinema mudo. A longa passagem pelos escritórios e pelo metrô transforma uma rotina aparentemente banal em espetáculo visual, mostrando como o diretor ainda encontrava maneiras inventivas de contar uma história sem depender constantemente dos diálogos.

Quando o casal embarca no navio, porém, a dinâmica muda. Fred fica enjoado e Emily passa a circular sozinha, encontrando novas possibilidades de romance, enquanto o marido se encanta por uma suposta princesa. A viagem funciona então como uma suspensão das regras da vida anterior: longe de casa, os dois experimentam identidades diferentes e se permitem desejos que provavelmente permaneceriam reprimidos em Londres. O dinheiro, nesse sentido, não cria a insatisfação do casal, mas apenas dá liberdade para que ela se manifeste.

Hitchcock também se diverte com a ironia dessa transformação. Fred e Emily imaginam que a riqueza os aproximará de uma vida sofisticada, mas acabam envolvidos com pessoas que os enxergam principalmente como oportunidades. O encanto pelo exótico e pelo luxo progressivamente dá lugar à decepção, enquanto o casamento, que parecia tão seguro justamente por ser previsível, ameaça desaparecer. Há um humor amargo nessa inversão: quanto mais os protagonistas tentam escapar da mediocridade, mais ridículas e desastrosas se tornam suas escolhas.

A aventura ganha contornos mais estranhos quando o casal decide retornar à Inglaterra e enfrenta um naufrágio em meio à neblina. A situação leva a uma sequência quase absurda, na qual Fred e Emily acreditam estar diante da morte apenas para descobrir que o navio continua à deriva. Depois, encontram uma embarcação chinesa cuja tripulação saqueia o navio abandonado e até cozinha o gato. O episódio concentra o caráter episódico e imprevisível da narrativa, que prefere acumular situações insólitas a construir uma progressão dramática tradicional.

Apesar dessas ideias, Ricos e Estranhos nem sempre consegue transformar suas experimentações em uma experiência inteiramente coesa. A presença ainda significativa de recursos do cinema mudo, como cartelas e atuações mais expressivas, convive com diálogos do período sonoro, criando uma obra que parece estar entre duas linguagens. Essa indefinição pode ser fascinante em alguns momentos, mas também contribui para um ritmo irregular e para a sensação de que Hitchcock está mais interessado em testar possibilidades do que em conduzir o espectador por uma história perfeitamente equilibrada.

No fim, a jornada de Fred e Emily funciona melhor como uma curiosa parábola sobre casamento, desejo e insatisfação do que como um melodrama romântico convencional. Depois de experimentar riqueza, infidelidade, desilusão e até a possibilidade da morte, o casal retorna para casa com uma percepção diferente do que realmente possui. Hitchcock ainda estava distante de algumas das obras-primas que consolidariam sua carreira, mas Ricos e Estranhos revela um cineasta disposto a experimentar, misturando humor, aventura e observação social para descobrir o que acontece quando duas pessoas finalmente conseguem tudo aquilo que acreditavam querer.

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