Agente Secreto

(1936) ‧ 1h26

Quando cumprir a missão deixa de ser suficiente

Felipe Fornari

Em Agente Secreto, Alfred Hitchcock retorna ao universo da espionagem, mas segue um caminho consideravelmente diferente daquele percorrido em 39 Degraus. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial e inspirado livremente nos relatos de espionagem de W. Somerset Maugham, o filme acompanha Edgar Brodie, escritor cuja morte é oficialmente anunciada para que ele possa assumir uma nova identidade e trabalhar para o serviço secreto britânico. Rebatizado como Ashenden, ele é enviado à Suíça com uma missão aparentemente objetiva: identificar e eliminar um agente alemão antes que o homem consiga completar seu trabalho.

A diferença fundamental está na posição ocupada pelo protagonista. Se em 39 Degraus Richard Hannay era um inocente obrigado a escapar de uma conspiração que mal compreendia, Ashenden entra voluntariamente nesse jogo e precisa lidar com as consequências de suas próprias decisões. Hitchcock está menos interessado em descobrir quem é o inimigo do que em questionar o que significa receber autorização para matar alguém em nome de uma causa. O suspense surge justamente quando a obrigação profissional começa a entrar em conflito com a consciência de quem precisa executá-la.

John Gielgud interpreta Ashenden com uma contenção adequada a essa ambiguidade, enquanto Peter Lorre transforma o excêntrico General em uma presença imprevisível. Seu personagem consegue ser simultaneamente engraçado, desagradável e ameaçador, encarando a violência com uma naturalidade que contrasta diretamente com o crescente desconforto do protagonista. Entre eles está Elsa, inicialmente seduzida pela fantasia de participar de uma aventura de espionagem, mas progressivamente confrontada com aquilo que essa aventura realmente significa quando deixa de envolver códigos e identidades falsas para resultar na morte de pessoas.

É nesse ponto que Agente Secreto encontra sua dimensão mais interessante. Uma das principais operações conduz os personagens à perseguição de um homem identificado como agente inimigo, culminando em uma sequência nas montanhas construída com notável tensão. Hitchcock trabalha a distância entre quem observa e quem executa a ação, transformando uma paisagem aparentemente tranquila em cenário para uma morte. Quando surge a possibilidade de que eles tenham perseguido o homem errado, toda a lógica heroica da missão desmorona. Não existe satisfação na conclusão, apenas a percepção de que um erro cometido nesse universo não pode ser corrigido.

O diretor também continua desenvolvendo sua habilidade de utilizar som e imagem como instrumentos de suspense. Ruídos cotidianos ganham importância dramática, enquanto espaços públicos e aparentemente seguros escondem ameaças. Há ainda o contraste tipicamente hitchcockiano entre violência e humor, embora aqui essa combinação seja mais desconfortável do que divertida. A morte pode acontecer enquanto outras pessoas continuam suas atividades normalmente, reforçando a ideia de que o mundo da espionagem existe quase invisivelmente dentro da vida cotidiana.

Nem todas as escolhas possuem a mesma eficiência. O ritmo oscila, alguns personagens permanecem pouco desenvolvidos e a trama de espionagem não possui a extraordinária fluidez de 39 Degraus. O próprio romance ocupa uma posição um tanto incerta dentro da narrativa, enquanto certas mudanças de tom tornam o conjunto menos equilibrado. Ainda assim, essas irregularidades são compensadas pela disposição de Hitchcock em questionar as convenções do gênero justamente quando poderia simplesmente repetir a fórmula que havia funcionado tão bem no filme anterior.

Agente Secreto funciona, assim, como um suspense de espionagem interessado menos na glória da missão do que no preço cobrado de quem precisa realizá-la. O inimigo pode ser identificado e os objetivos políticos podem parecer claros, mas matar alguém continua sendo uma decisão impossível de reduzir a uma simples ordem. Hitchcock encontra nessa contradição um filme mais sombrio e moralmente inquieto, no qual patriotismo, dever e consciência raramente apontam para a mesma direção. Talvez não tenha a precisão de seus melhores trabalhos britânicos, mas demonstra um cineasta cada vez mais interessado nas consequências humanas escondidas por trás das engrenagens do suspense.

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