Presença

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"Presença": A arte performática afro-brasileira em foco, mas com algumas distorções

Presença é o primeiro longa-metragem de Erly Vieira Jr., realizador capixaba que possui curtas-metragens premiados em diversos festivais desde os anos 2000.

O filme é um documentário sobre três artistas afro-brasileiros, atuantes no Espírito Santo e com carreiras consolidadas internacionalmente, que fazem de seus corpos o meio e objeto de sua arte. Marcus Vinícius, Castiel Vitorino Brasileiro e Rubiane Maia construíram as carreiras percorrendo o mundo em busca da reinvenção. Os artistas afro-brasileiros transmutam-se a cada performance. Eles fazem uma reflexão sobre os limites que apontamos para nossos próprios corpos.

O diretor acompanha os trabalhos dos três artistas e eles explicam os conceitos por trás das criações relacionadas às suas raízes afro-brasileiras, sua sexualidade e sua identidade de gênero. O documentário mescla imagens de arquivo de trabalhos e intervenções dos artistas e performances inéditas, concebidas especialmente para o filme, e fazendo uso de um desenho de som e uma edição que valorizam conexões entre obras distintas.

Castiel, por exemplo, apresenta aos familiares uma dança executada diretamente sobre a terra, de forte expressividade corporal. Rubiane Maia manipula grandes objetos no alto de uma montanha, em sua pesquisa a respeito da preparação para o voo. Já Marcus Vinícius manipula o fogo e os locais abandonados enquanto confronta sua nudez à natureza. A câmera se aproxima destas apresentações, buscando o corpo de Rubiane num contraplongée.

Ao fazer seu corpo performático surgir numa explosão, e muitas vezes enfrentando riscos físicos, Marcus Vinícius se propôs, através da sua arte, transfigurar a dor em leveza e em silenciosos rituais cotidianos. Rubiane sempre teve o desejo de voar como quem dança, mas o confronto direto com o racismo, após uma temporada vivendo na Europa, a fez buscar outros modos de conexão que atravessaram o Oceano Atlântico na diáspora afro-brasileira. Entretanto, Castiel se autodeclara triplamente curandeira (como psicóloga, artista e macumbeira), que “escolheu ser peixe antes de ser humana”, segundo a tradição da cosmogonia.

No entanto, o documentário evita justificar um aspecto tão distinto daquele encontrado de costume nas salas de cinema. De resto, desperta a impressão de uma indefinição conceitual, ou de um longa-metragem finalizado às pressas. O trabalho de letreiros indicativos se mostra muito simples em termos de design, e às vezes mistura os nomes em português com um “Stockholm”, ao invés de Estocolmo. Na apresentação de Castiel, o boom entra em quadro, a câmera se chacoalha freneticamente para todos os lados, sem saber ao certo onde se focar, por quanto tempo.

Em suma, Presença é um filme sobre artistas que compreendem a performance como forma de insubordinação diante dos papeis sociais. Questões como a relação com a paisagem e a conexão com a natureza e seus elementos, a fragilidade da experiência humana, a solidão existencial, a espiritualidade, a racialidade, a performance como uma metodologia de contato íntimo com o espectador, são alguns dos temas universais que o filme aborda. Entretanto, ao final, Presença levanta mais dúvidas do que reflexões.

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