Querendo ou Não

(2025) ‧ 1h37

Quando a família tira a vida dos trilhos

Giovanni Paoli

Muitos filmes de comédia se enfraquecem ao proporem dinâmicas familiares com traços de perfeição exagerados ou conflitos forçados que não geram verdade alguma. Definitivamente, esse não é o caso de Querendo ou Não, onde o diretor Gianni Di Gregorio consegue nos mostrar que os sentimentos entre pessoas do mesmo sangue, muitas vezes, são camuflados pelos conflitos envolvidos na personalidade de cada personagem dessa história.

O longa começa nos apresentando Helmut, um professor universitário que acaba tendo com uma de suas alunas muito mais do que debates sobre Dante ou filosofia em geral. Mas o desenrolar do filme, logo no início, não foca nessa relação, e sim em nos apresentar a vida de Professore, interpretado pelo próprio diretor, que mora em um bairro tradicional italiano, regado de calmaria, em um ambiente que combina perfeitamente com sua personalidade pacífica e pouco aventureira. De repente, Querendo ou Não nos entrega mais uma de suas quebras de expectativa, quando Sofia avisa ao pai, o Professore, que está a caminho de volta para a casa dele após ser traída pelo marido. Ele mesmo, Helmut.

A dinâmica passa a ser, então, o convívio entre pai e filha e avô e netos. O professor aposentado tem sua vida tirada dos trilhos no momento em que precisa conviver com duas crianças e suas tradicionais traquinagens, algumas muito exageradas, principalmente no personagem Tommaso, o filho mais novo. Essa conexão entre o avô e as duas crianças caminha bem e consegue sustentar a premissa do longa, mas não é possível dizer o mesmo da relação entre pai e filha, muito menos entre mãe e filhos. O luto de Sofia, a esposa traída, é representado principalmente pela raiva e pelo isolamento. Pouco se vê de sentimentos mais aflorados que poderiam dar camadas mais interessantes à personagem. O comportamento mais frio de Sofia pode até ser justificado pela maneira como foi criada, mas o filme engasga em alguns momentos ao tentar relembrar o passado, sem nunca avançar nessa linha que seria fundamental para abraçarmos de vez as dores da personagem, que em tela se mostra apenas uma pessoa mal-humorada e até distante dos próprios filhos.

Enquanto isso, Helmut, sozinho, ou melhor, na presença de seu novo melhor amigo Stern, um cachorro ou lobo, fica a dúvida, traça sua própria jornada de redenção ao caminhar da Alemanha até a Itália em busca do perdão de sua amada. Esse arco isolado é uma habilidade interessante da direção, que consegue construir uma narrativa secundária aventureira e dramática, com pouquíssimo tempo de tela e sem precisar introduzir novos personagens “do nada” para fortalecer a trajetória de Helmut.

Por outro lado, fica a sensação de que Querendo ou Não poderia ir além. Parece que o objetivo é a transformação de Professore, que, ao receber uma dose de “vida” dos netinhos agitados, deveria se desapegar mais do aconchego e ir em busca das aventuras que seu coração sempre desejou. É mais ou menos o que acontece, mas o filme só esquece, ou prefere não mostrar, o processo dessa redenção.

Vale destacar que a presença dos personagens que trabalham no restaurante frequentado por Professore, assim como seu mordomo mal-humorado, Rishaad, ajuda a dar ao bairro uma vida própria. São personagens que aparecem em momentos pontuais, mas contribuem para o humor e para a construção de uma rotina que vai além dos problemas daquela família. A direção consegue aproveitar bem essas pequenas interações para mostrar um pouco mais sobre o protagonista sem precisar explicar o tempo todo quem ele é.

Querendo ou Não é um filme divertido, com bons momentos e outros um pouco mais arrastados, mas que consegue contar uma boa história familiar sem depender apenas de situações engraçadas. Uma produção que até tenta, em alguns momentos, desenvolver suas ideias para um próximo nível, mas acaba deixando algumas delas pelo caminho.

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