Os Trapaceiros de Garibaldi

(2024) ‧ 2h11

Os pequenos grandes heróis por trás da história: A perspectiva daqueles que querem sobreviver

Daniela de Oliveira Pires

Os Trapaceiros de Garibaldi, escrito e dirigido por Roberto Andò, com a belíssima fotografia da região da Sicília, assinada por Maurizio Calvessi, apresenta um cenário de tirar o fôlego. A produção mescla drama histórico e comédia, mobilizando diferentes sentimentos, diálogos e reflexões sobre a condição humana em tempos de guerra, ao longo de 131 minutos.

O filme foi exibido no Festival de Rotterdam. O cineasta experiente trabalha, mais uma vez, com um dos nomes mais importantes da atualidade do cinema italiano: Toni Servillo, premiado este ano no Festival de Veneza. Juntos, já foram responsáveis pelos seguintes longas-metragens: Viva a Liberdade (2013), As Confissões (2016) e A Estranha Comédia da Vida (2022).

No filme, em 1860, Garibaldi desembarca na Sicília com pouco mais de mil homens para lutar pela unificação da Itália. A famosa Expedição dos Mil tornou-se um dos episódios mais celebrados do Risorgimento italiano, acompanhando Giuseppe Garibaldi e seu exército de homens e jovens, muitos deles sem experiência em batalhas, na expedição para libertar o Reino das Duas Sicílias do domínio borbônico.

Giuseppe Garibaldi (Nice, 11 de julho de 1807 – Caprera, 2 de junho de 1882) foi um general, guerrilheiro, patriota e revolucionário italiano, conhecido como o “herói de dois mundos”. Teve um papel destacado nas lutas pela independência do Brasil durante o século XIX, com destaque para a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, que, durante dez anos (1835–1845), foi palco de batalhas no sul do Brasil. Em suma, foi um líder que lutou no Brasil e na Itália por dois propósitos: a independência e a unificação dos respectivos países.

Como acompanhar um conflito que dura mais de dez anos com doçura, comédia, drama e profundidade? Tenho algumas pistas. Primeiro, Toni Servillo, que somente realiza filmes magistrais, consegue nos comover e nunca falha na mesma proporção em que nos desacomoda e nos faz refletir sobre nossos valores e princípios, sempre com competência e sensibilidade. Somente para citar alguns exemplos: A Grande Beleza (2013), A Mão de Deus (2021) e A Graça (2026), todos dirigidos por Paolo Sorrentino.

Segundo, o diretor encontrou uma forma inusitada de narrar esse episódio histórico: sob a ótica do humor. Passamos, assim, a acompanhar a trajetória de dois soldados que decidem abandonar o exército e acabam envolvidos em situações que os aproximam de um episódio decisivo, capaz de reescrever os rumos do conflito.

Na trama, Toni Servillo interpreta o coronel Vincenzo Giordano Orsini, um personagem real, enquanto Salvatore Ficarra e Valentino Picone, uma dupla de comediantes muito conhecida na Itália, interpretam os soldados desertores.

Servillo nos presenteia com uma atuação magistral, digna dos grandes atores italianos, na interpretação de um coronel que possui um ponto de vista muito particular sobre o conflito. É um personagem profundo, que nutre o amor e a esperança de construir uma Itália unificada, mas que, ao mesmo tempo, demonstra apreensão em relação ao futuro da política. “Pobre Itália, que ilusão” “Charlatões serão os formadores de opinião”.

Já os dois soldados trapaceiros, Domenico Tricó e Rosario Spitale, estão mais preocupados com valores demasiado humano: sobreviver e conseguir retornar para casa, sem heroísmos ou busca pelo reconhecimento de suas improváveis façanhas.

O diretor constrói sua narrativa com profundo respeito pelos personagens envolvidos, entre trapaças, enganos, alegrias e tristezas, mostrando que, por trás dos grandes eventos históricos, existem vidas, frustrações, dúvidas e superações que nem sempre ficam visíveis.

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