Placar: A Revista Militante tem um ponto de partida instigante: contar a trajetória de uma das publicações mais icônicas do jornalismo esportivo brasileiro, que ousou misturar futebol e política em um dos períodos mais sombrios do país. A proposta de reconstituir esse legado, expondo os momentos de coragem editorial da revista em meio à ditadura militar, carrega consigo um potencial histórico e emocional considerável. No entanto, o documentário tropeça ao tentar abarcar tanto e acaba entregando um retrato superficial e desigual.
A estrutura narrativa alterna depoimentos, imagens de arquivo e recriações visuais para costurar os principais marcos da revista, com destaque para a célebre capa sobre a morte de Vladimir Herzog e o apoio editorial à Democracia Corinthiana. Contudo, a insistência em certos tópicos — como o caso do Corinthians — ocupa espaço demais e desequilibra o conjunto, especialmente quando outras histórias de resistência, tão ou mais emblemáticas, são apenas pinceladas ou sequer mencionadas.

Há uma sensação constante de que Placar: A Revista Militante é um recorte enviesado, excessivamente centrado no eixo Rio-São Paulo. Isso empobrece a abrangência do projeto e ignora a relevância de jornalistas, jogadores e movimentos de outros estados. A ausência de vozes mineiras, por exemplo, é gritante, especialmente considerando a importância de nomes como Reinaldo, que foi um dos símbolos máximos da resistência nos gramados e sequer tem espaço na narrativa.
A escolha por privilegiar determinadas figuras e episódios — como a já mencionada Democracia Corinthiana — também deixa o documentário vulnerável a críticas de partidarismo e reducionismo. Mesmo com a inclusão de contrapontos, como o depoimento do Zico, a condução editorial do filme parece reiterar uma leitura unidimensional da militância na revista, quando ela, na prática, foi plural, diversa e marcada por contradições.
Tecnicamente, o documentário se ressente da limitação orçamentária, visível na falta de uniformidade visual e sonora de algumas entrevistas, além do uso extensivo de imagens de arquivo sem a devida fluidez. Ainda assim, a montagem se esforça para manter um ritmo envolvente e a trilha sonora contribui para a ambientação, mesmo que não salve os problemas estruturais.

Apesar de suas limitações, o filme cumpre um papel relevante ao relembrar uma publicação que se arriscou ao desafiar poderes e ao mostrar que o futebol pode, sim, ser um veículo de crítica e transformação social. Seu maior mérito talvez seja reacender a curiosidade sobre a história da Placar, especialmente para quem não viveu a era de ouro da revista.
No fim das contas, Placar: A Revista Militante é uma obra que acerta na escolha do tema, mas escorrega na execução. Fica a impressão de que o filme poderia ir mais longe, mais fundo e com mais equilíbrio.








