Fiebre: Um Filme para Crianças que Não Têm Medo de Fogo

(2022) ‧ 1h24

Uma febre de imagens e imaginação

Felipe Fornari

Nino está com febre quando acaba absorvido por uma pintura e precisa atravessar uma sequência de imagens para reencontrar a mãe. A partir daí, a lógica cotidiana praticamente desaparece, e cada passagem pode levá-lo a um espaço regido por outra textura, outra forma de movimento e outra relação com aquilo que parece real.

Fiebre: Um Filme para Crianças que Não Têm Medo de Fogo parte de uma escolha interessante justamente porque não reduz sua linguagem para conversar com o público infantil. Live-action, animação, desenhos, fotografias e pinturas vão se contaminando enquanto Nino avança, como se a febre deixasse de ser apenas uma condição do personagem e passasse a organizar também a montagem. Uma imagem conduz à seguinte por associação, objetos podem ganhar outra função sem explicação e o absurdo é aceito com a naturalidade de um sonho que muda de direção antes que seja possível organizar tudo racionalmente.

Essa liberdade oferece alguns dos momentos mais curiosos da experiência. As técnicas artesanais dão materialidade aos diferentes espaços e transformam as imagens em lugares que Nino pode efetivamente atravessar, em vez de simples referências colocadas diante da câmera. Também existe personalidade na recusa em explicar cada símbolo ou antecipar qual emoção o espectador deveria sentir.

O problema aparece quando essa lógica começa a depender demais da própria novidade. Conforme novos universos repetem o movimento de entrada, descoberta e passagem para outra imagem, a surpresa perde intensidade e a aventura fica cada vez menos envolvente. A segunda metade prolonga ideias que já estavam claras, enquanto o desejo de reencontrar a mãe, que poderia organizar emocionalmente esse percurso tão fragmentado, não ganha força suficiente para compensar a irregularidade.

A questão nem está em uma criança compreender cada associação visual. O desafio seria manter curiosidade, humor e emoção mesmo quando o sentido escapa. A inventividade continua evidente, mas aos poucos parece mais concentrada em encontrar outra forma de imagem do que em renovar aquilo que Nino vive dentro dela.

Elisa Eliash tenta aproximar o próprio cinema do pensamento febril de uma criança, com suas associações imprevisíveis e mudanças repentinas. É uma ideia visualmente generosa, porém a liberdade que permite ao longa ser tão estranho também expõe sua fragilidade quando a experiência deixa de avançar junto com suas imagens.

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