Há algo de promissor em colocar uma família milionária e completamente disfuncional no centro de uma sátira sobre classe, privilégio e decadência moral. Rosebush Pruning parte de um grupo de irmãos que vive isolado em uma propriedade luxuosa, sustentado por uma fortuna herdada e tão protegido das consequências de suas próprias escolhas que parece incapaz de funcionar como uma família normal. Quando Jack decide sair de casa para viver com Martha, a presença de alguém de fora ameaça um equilíbrio que já era bastante frágil. O problema é que o filme parece tão interessado em demonstrar o quão grotescas são aquelas pessoas que se esquece de transformá-las em personagens realmente interessantes.
A influência de Succession e Saltburn é difícil de ignorar, embora a produção siga por um caminho mais próximo do humor ácido e do absurdo. Há também uma dívida evidente com De Punho Cerrado, de Marco Bellocchio, especialmente na representação de uma família rica cuja convivência transforma privilégios em uma espécie de prisão. Efthimis Filippou, responsável pelo roteiro, conhece bem esse território de relações familiares estranhas e comportamentos extremos, mas a abordagem aqui parece menos afiada do que em trabalhos anteriores. O filme reúne todos os ingredientes para uma sátira mordaz, mas frequentemente explica demais aquilo que já deveria estar evidente.

A dinâmica entre os irmãos oferece algumas das situações mais interessantes. Ed aprende a imitar a voz de Jack para manipular os demais, Anna tenta conciliar suas aspirações artísticas com um talento bastante discutível e Robert vive submetido às próprias limitações e à expectativa da família. Jack, por sua vez, ocupa uma posição central justamente porque sua decisão de partir ameaça a estrutura daquele pequeno universo. São personagens potencialmente ricos porque todos dependem uns dos outros ao mesmo tempo em que parecem desejar secretamente a destruição dos demais. O problema é que o roteiro insiste tanto em suas excentricidades que dificilmente conseguimos enxergar algo além delas.
A chegada de Martha deveria funcionar como o elemento capaz de desestabilizar definitivamente essa dinâmica. Interpretada por Elle Fanning, ela é uma presença externa que evidencia as inseguranças dos irmãos e expõe o quanto aquela família construiu suas próprias regras. O pai, um homem cego que continua exercendo uma influência desproporcional sobre os filhos, contribui para a sensação de claustrofobia, especialmente porque suas relações são baseadas em dependência, constrangimento e manipulação. Existem momentos genuinamente desconfortáveis nessa convivência, mas o filme parece esperar que o simples fato de aquelas pessoas serem tão estranhas seja suficiente para produzir fascínio.
Karim Aïnouz demonstra controle visual considerável ao transformar a casa em uma espécie de organismo fechado, moderno e sufocante. A arquitetura, os espaços amplos e a distância entre os personagens ajudam a criar a sensação de que aquela riqueza não oferece liberdade alguma. Pelo contrário: quanto mais luxuoso o ambiente, mais artificial parece a existência daqueles irmãos. Há uma composição cuidadosa nas imagens e uma atmosfera coerente com a proposta, mas o rigor visual acaba contrastando com um roteiro que nem sempre possui a mesma precisão. Rosebush Pruning é frequentemente mais interessante de observar do que de acompanhar.

Jamie Bell é quem mais consegue escapar dessa armadilha, conferindo a Jack uma combinação de irritação, fragilidade e estranheza que sugere conflitos mais complexos do que aqueles explicitados pelo roteiro. Elle Fanning também encontra personalidade em Martha, especialmente por representar uma ameaça simplesmente por não pertencer àquela estrutura familiar. Os demais intérpretes, embora competentes, parecem presos a personagens concebidos para ilustrar determinadas ideias sobre privilégio, patriarcado e herança. A sátira funciona melhor quando deixa essas questões emergirem do comportamento dos personagens; quando precisa apontá-las diretamente, perde boa parte de sua força.
No fim, Rosebush Pruning possui uma ideia central interessante e algumas imagens memoráveis, mas não consegue transformar sua família grotesca em uma companhia tão fascinante quanto acredita. A crítica ao privilégio e à reprodução de estruturas de poder dentro das famílias ricas é evidente, porém a insistência em tornar tudo excêntrico, chocante e simbólico produz uma sensação de artificialidade. Há boas atuações, uma direção visual segura e momentos em que o humor ácido realmente encontra seu alvo, mas também uma quantidade considerável de esforço para chegar a conclusões que o espectador já compreendeu muito antes. É uma sátira com dentes, mas que passa tempo demais mostrando-os e pouco tempo realmente mordendo.







