Marido de Aluguel

(2026) ‧ 1h24

Muito caos para pouca graça

Felipe Fornari

Marido de Aluguel não demora a estabelecer suas intenções. Paulo Fontenelle constrói uma comédia interessada em exageros, personagens caricatos e situações que ficam progressivamente mais absurdas, sem qualquer compromisso com verossimilhança ou profundidade. Existe alguma honestidade nessa escolha: o filme não tenta transformar sua confusão em algo mais importante do que ela realmente é. O problema é que assumir a própria superficialidade não torna automaticamente engraçadas as piadas utilizadas para sustentá-la.

Mauricio Manfrini interpreta Vadeco dentro de um registro que lhe é bastante confortável. O personagem é um sujeito comum empurrado para acontecimentos cada vez mais improváveis, permitindo que o ator utilize sua experiência com humor popular e reações exageradas. A produção ainda brinca com essa inadequação ao tratar determinadas ações do protagonista com uma grandiosidade incompatível com aquilo que está acontecendo. Trilha sonora e encenação sugerem uma aventura épica enquanto acompanhamos pessoas completamente despreparadas para qualquer espécie de heroísmo.

Essa paródia funciona ocasionalmente, sobretudo quando o elenco compreende que não precisa disputar em extravagância com o roteiro. Heitor Martinez é quem melhor encontra esse equilíbrio como Roger, enfrentando as situações mais absurdas com uma seriedade que torna sua presença genuinamente divertida. É justamente quando Marido de Aluguel confia nesse contraste que algumas piadas encontram força. O absurdo funciona melhor quando os personagens parecem não perceber que estão dentro dele.

Na maior parte do tempo, entretanto, o filme prefere sublinhar demais sua comicidade. Piadas rápidas, humor físico, insinuações sexuais e confusões são empilhados em um ritmo que deixa pouco espaço para que qualquer situação seja devidamente construída. Algumas funcionam pela surpresa, outras se prolongam até perder o efeito, mas muitas simplesmente parecem variações de mecanismos conhecidos. A sensação é de uma produção tão preocupada em chegar à próxima gag que raramente consegue extrair tudo daquela que acabou de apresentar.

A falta de desenvolvimento dos personagens também pesa mais do que deveria. Não seria necessário transformar uma comédia assumidamente farsesca em um estudo psicológico, mas alguma construção dramática ajudaria a tornar o caos mais envolvente. Relações, motivações e conflitos existem sobretudo porque o roteiro precisa movimentar seus personagens de uma situação para outra. Quando o filme eventualmente procura alguma conexão emocional, já conhecemos tão pouco aquelas figuras que o resultado dificilmente produz efeito.

Fontenelle demonstra ao menos consciência do tipo de entretenimento que deseja realizar. Há referências evidentes às comédias de situação e às paródias cinematográficas, além de sequências que encontram graça justamente ao reproduzir convenções conhecidas em contextos ridículos. Porém, reconhecer essas fórmulas não significa necessariamente reinventá-las. Em diversos momentos, Marido de Aluguel parece mais satisfeito em reproduzir uma piada familiar do que em descobrir alguma maneira particularmente inventiva de executá-la.

No fim, Marido de Aluguel possui alguns momentos engraçados e um elenco disposto a abraçar completamente sua proposta, mas isso não é suficiente para sustentar uma comédia tão dependente da quantidade de piadas. Sua despretensão poderia ser uma qualidade caso viesse acompanhada de maior precisão cômica, personagens mais interessantes ou situações realmente memoráveis. Em vez disso, sobra uma sucessão irregular de absurdos que eventualmente encontra o riso, mas frequentemente apenas passa para a próxima confusão esperando que ela seja mais divertida do que a anterior.

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