Alejandro González Iñárritu nunca foi um cineasta particularmente interessado em escolher o caminho mais confortável, mas Digger talvez seja sua provocação mais estranha até aqui. Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um bilionário cuja empresa provoca uma catástrofe ambiental de proporções globais e que, diante do desastre, decide transformar a própria culpa em uma oportunidade para se apresentar como o homem capaz de salvar a humanidade. A premissa já carrega uma ironia evidente, mas o filme vai além dela ao transformar a tentativa de controlar a crise em uma discussão sobre quem controla a história contada sobre ela. É uma sátira sobre poder, imagem e responsabilidade que deliberadamente parece estar prestes a perder o controle a qualquer momento.
O mais interessante é que Iñárritu não trata Digger simplesmente como um vilão caricatural. Ele é, antes de tudo, um homem convencido de que qualquer problema pode ser resolvido se ele conseguir controlar suficientemente bem a narrativa. A catástrofe existe, as consequências são concretas, mas a preocupação do protagonista também está em como será lembrado quando tudo terminar. Nesse sentido, Digger encontra uma ideia particularmente contemporânea: em um mundo dominado por comunicação instantânea, relações públicas e discursos cuidadosamente fabricados, a diferença entre solucionar uma crise e convencer o público de que você a solucionou pode desaparecer completamente.

É impossível não pensar em Dr. Fantástico diante dessa combinação de poder, absurdo e homens que acreditam possuir controle absoluto sobre situações que já escaparam completamente de suas mãos. Assim como Stanley Kubrick transformava a lógica do poder político e militar em uma comédia cada vez mais delirante, Iñárritu utiliza o exagero para revelar o ridículo por trás de figuras que se levam extremamente a sério. A diferença é que, em Digger, a ameaça não nasce apenas de governos ou arsenais, mas também da concentração de riqueza, da influência empresarial e da capacidade de um indivíduo poderoso transformar a própria responsabilidade em espetáculo. É uma atualização interessante daquela tradição satírica, ainda que o filme tenha uma personalidade muito mais caótica.
O mais curioso é que Digger parece também observar a própria existência enquanto sátira. Iñárritu transforma a provocação em espetáculo, construindo situações absurdas e personagens que parecem existir um passo além da realidade. O resultado nem sempre é engraçado — há momentos em que a excentricidade parece mais interessada em provocar desconforto do que em arrancar risadas —, mas existe uma lógica fascinante nesse excesso. O filme parece questionar o próprio funcionamento da sátira enquanto satiriza um mundo que tornou a sátira necessária. É uma operação arriscada e, por vezes, irregular, mas justamente por isso impede que a produção se acomode em uma crítica previsível ao bilionário inconsequente.
Tom Cruise abraça completamente essa estranheza. Sob maquiagem e próteses, com um visual distante da imagem habitual do astro, ele transforma Digger em uma criatura simultaneamente ridícula, carismática e perturbadora. Há uma consciência muito clara de sua própria persona de estrela na maneira como o ator ocupa a tela, e o filme se diverte colocando essa figura gigantesca diante de situações nas quais sua capacidade de controlar o espetáculo começa a ruir. Riz Ahmed funciona como um contraponto especialmente eficiente, e o embate entre os dois produz alguns dos momentos mais interessantes da narrativa justamente porque nenhum deles parece disposto a ceder o controle da conversa.

Visualmente, poucas coisas em Digger parecem ter sido feitas pela metade. A fotografia de Emmanuel Lubezki e o desenho de produção constroem um mundo grandioso, estranho e frequentemente impressionante, no qual mansões, instalações industriais, paisagens e espaços políticos assumem proporções quase operísticas. O apocalipse não é tratado apenas como pano de fundo, mas como uma extensão da megalomania do protagonista. Mesmo quando o roteiro exagera, existe uma riqueza visual que torna a experiência cinematográfica estimulante. É um filme que quer ser visto em uma tela grande e que entende a imagem como parte fundamental de sua provocação.
No fim, Digger é um filme que parece ter sido concebido para provocar discussões tão intensas quanto aquelas que acontecem dentro dele. Nem todas as suas escolhas chegam ao mesmo lugar, algumas piadas passam longe do alvo e a sátira poderia confiar mais na inteligência do público, mas existe algo admirável em uma produção desse tamanho disposta a ser tão estranha, desconfortável e imprevisível. Se Dr. Fantástico encontrou no absurdo uma maneira de revelar a irracionalidade de homens convencidos de que controlavam o destino do mundo, Iñárritu atualiza essa lógica para uma época em que dinheiro, imagem e influência podem ser armas tão poderosas quanto qualquer arsenal. No universo de Digger, talvez a maior tragédia não seja destruir o mundo — seja perder o controle sobre a história de quem o destruiu.







