Baseado no livro Incidents Around the House, de Josh Malerman (mesmo autor de Caixa de Pássaros), e produzido sob o selo da Blumhouse, Outra Mamãe chega aos cinemas cercado de expectativa.
Com direção de Rob Savage e um elenco encabeçado pela vencedora do Oscar Jessica Chastain, o longa prometia uma abordagem sufocante sobre terrores domésticos e fraturas familiares. No entanto, o resultado nas telas revela uma ambivalência curiosa entre o esforço técnico de seu elenco e tropeços severos de roteiro.
A trama acompanha Bela (Arabella Olivia Clark), uma garota de oito anos cujos pais, Ursula e Russ (vividos por Chastain e Jay Duplass), enfrentam uma crise conjugal profunda. É nesse ambiente de instabilidade emocional que surge uma entidade sobrenatural habitando o armário do quarto de Bela, passando a assombrá-la e a exigir sua atenção sob a alcunha perturbadora de “Outra Mamãe”. O grande diferencial conceitual — e o maior trunfo publicitário da obra — é o fato de Jessica Chastain acumular dois papéis opostos: a mãe real, humana e acuada, e a própria criatura metamorfa.

Jessica Chastain entrega-se por inteiro ao projeto, alternando com precisão cirúrgica entre a vulnerabilidade maternal e uma fisicalidade sombria e maquiavélica na pele da entidade. Ao lado dela, a jovem Arabella Olivia Clark sustenta os momentos de pavor infantil com uma entrega admirável.
Contudo, nem mesmo o talento magnético de Chastain é capaz de blindar o filme contra as fragilidades de sua execução.
O roteiro assinado por Nathan Elston derrapa na transição entre o drama familiar intimista e o terror sobrenatural. Enquanto entrega em sua atmosfera opressiva e em sequências pontuais de horror corporal, ocorrem tropeços consideráveis.
O filme frequentemente oscila entre o melodrama familiar carregado e sustos repentinhos (jump scares) previsíveis, falhando em estabelecer uma coesão rítmica fluida. Diante de reviravoltas e conceitos que flertam com o inverossímil, o longa peca por se levar a sério demais. Em momentos cruciais do ato final, o acúmulo de soluções visuais questionáveis — incluindo efeitos de computação gráfica limitados — acaba gerando reações de riso involuntário na plateia.

O material de origem de Josh Malerman carregava um peso psicológico denso sobre a desestruturação de um lar vista pelos olhos de uma criança. No entanto, a adaptação cinematográfica opta por concessões comerciais que diluem essa profundidade em prol de sustos genéricos estilo “versão leve de Sobrenatural”.
Concluindo, Outra Mamãe cumpre o papel de entretenimento passageiro para fãs irrestritos do cinema de gênero em busca de sustos rápidos para a temporada de Halloween. Todavia, para uma premissa tão promissora e um talento do calibre de Jessica Chastain, o saldo final deixa um gosto de oportunidade perdida. É um filme que assusta mais pela ousadia do conceito do que pela eficácia de sua narrativa, provando que nem mesmo grandes atuações conseguem salvar um roteiro que desaba sob o peso de suas próprias pretensões.








