Acompanhar Érico Borgo em Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa é uma experiência tão fascinante quanto emocionante. Para quem acompanha sua trajetória desde o início do Omelete, vê-lo diante de um assunto que claramente desperta sua paixão significa conhecer um lado mais íntimo do jornalista. Seu entusiasmo, a curiosidade genuína e até mesmo os momentos de espontaneidade dão personalidade à jornada e nos convidam a mergulhar em um universo que vai muito além dos livros que conquistaram milhões de leitores.
O documentário percorre lugares importantes na vida de J. R. R. Tolkien, passando por paisagens da Inglaterra e da França, entre outras paradas que ajudam a compreender as experiências que alimentaram sua imaginação. Entretanto, a proposta não se limita a reconstruir a biografia do escritor ou a localizar as possíveis inspirações para a Terra-Média. O que torna essa investigação tão interessante é perceber como perdas, amizades, memórias, línguas e paisagens se misturaram ao olhar de alguém capaz de transformar o mundo ao redor em matéria-prima para a criação.

A direção de Laís Almeida acompanha esse percurso com um olhar caloroso e pessoal, valorizando tanto a beleza dos cenários quanto os detalhes que tornam a viagem especial. Fotografias antigas, ilustrações, anotações e outros recursos visuais enriquecem a narrativa sem depender exclusivamente de entrevistas ou explicações convencionais. A câmera também assume uma presença mais solta, que nos aproxima da equipe e faz com que a experiência pareça compartilhada. Em certos momentos, a impressão é tão física que quase sentimos o desconforto de acompanhar tantas estradas da poltrona do cinema. Guerreiros demais!
Essa liberdade combina com o próprio assunto. Afinal, falar de Tolkien é falar de alguém que dedicou décadas a construir, revisar e ampliar um universo particular, atento a palavras, nomes, histórias antigas e pequenos elementos que poderiam passar despercebidos por outras pessoas. O documentário nos lembra que a imaginação não nasce necessariamente de grandes acontecimentos, mas também da observação paciente e da disposição para fazer perguntas. É uma perspectiva especialmente inspiradora em um tempo no qual a velocidade parece importar mais do que a contemplação.
Há ainda algo muito bonito na maneira como o filme permite que a trajetória de Borgo dialogue com a de seu biografado. Enquanto investiga os caminhos percorridos por Tolkien, o jornalista também compartilha uma experiência pessoal, revelando como a busca por compreender a criatividade pode iluminar as próprias escolhas. Essa aproximação dá ao projeto uma dimensão íntima que impede a produção de se tornar apenas uma coleção de curiosidades para fãs. A paixão é o ponto de partida, mas a generosidade com que ela é compartilhada transforma a jornada em algo capaz de alcançar também quem não conhece profundamente a obra do escritor.

O resultado fica ainda mais interessante quando percebemos as escolhas criativas feitas pela própria equipe. A montagem, a fotografia, o roteiro e os recursos utilizados para apresentar a pesquisa não são meros instrumentos neutros: eles também revelam uma maneira particular de contar histórias. Existe uma satisfação especial em acompanhar um filme sobre a inventividade de Tolkien que, ao mesmo tempo, encontra suas próprias soluções narrativas. Saio com vontade de continuar essa experiência pelo livro que acompanha o documentário e de descobrir outras possibilidades desse encontro entre pesquisa, paixão e linguagem cinematográfica.
Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa é, portanto, um filme inspirador e generoso, que celebra não apenas a obra de um dos grandes criadores da literatura fantástica, mas o próprio ato de criar. É impossível não admirar pessoas que escolhem trilhar caminhos próprios, investigam aquilo que as move e encontram maneiras de compartilhar suas descobertas. Em meio a tantas produções preocupadas em reproduzir fórmulas conhecidas, assistir a uma obra que valoriza a curiosidade, a pesquisa e a liberdade criativa na telona é um prazer especial. Que esta seja apenas a primeira de muitas outras odisseias criativas dessa parceria tão improvável quanto acertada.








