Adaptações de videogames carregam um carma histórico, e poucas franquias sentiram o peso dessa maldição como Street Fighter. Trinta e dois anos após o fatídico longa estrelado por Jean-Claude Van Damme em 1994, o diretor Kitao Sakurai assume as rédeas desta nova versão com uma proposta tão arriscada quanto consciente: em vez de esconder o ridículo ou tentar transformar guerreiros coloridos em heróis sombrios e “realistas”, o filme mergulha de cabeça no absurdo camp. O resultado é uma obra vibrante e cheia de atitude, mas que luta constantemente contra o próprio peso narrativo.
Ambientado em 1993, no auge do fenômeno dos fliperamas e da era de ouro de Street Fighter II, o filme acerta em cheio na criação do seu universo. O longa abraça uma linguagem audiovisual rítmica e saudosista, utilizando sequências de animação 2D desenhadas à mão e transições que evocam diretamente as telas de seleção dos consoles da época.

As coreografias de combate são visceralmente desenhadas. O destaque vai para Andrew Koji (Ryu) e Callina Liang (Chun-Li), que mandam uma entrega física notável e dão corpo a combates empolgantes. O uso de efeitos e iluminação para simular os golpes icônicos respeita a essência do material original sem soar completamente deslocado na tela grande.
Apesar de seu apelo estético marcante, o filme tropeça quando tenta costurar a sua premissa. Ao tentar inflar a trama para agradar o máximo de fãs possível, diversos personagens clássicos, como Zangief, E. Honda e Guile (vivido pelo astro do wrestling Cody Rhodes) — acabam reduzidos a aparições relâmpago. Servem como acenos nostálgicos, mas prejudicam o ritmo geral da narrativa.
A mescla entre comédia pastelão e piadas de tom duvidoso com a promessa de um torneio mortal gera ruídos violentos. Em determinados momentos, o filme hesita entre ser uma sátira escancarada do gênero de artes marciais e uma aventura dramática de superação.

O roteiro peca pela fragilidade dos textos. Enquanto David Dastmalchian tenta imprimir uma vilania teatral e sombria como M. Bison, as falas genéricas e o ritmo acelerado impedem que a ameaça do personagem se consolide com o peso necessário. Andrew Koji (Ryu) e Callina Liang (Chun-Li) trazem ótima química e excelente presença de luta.
Apesar da trama rocambolesca, excesso de subtramas e diálogos expositivos, Street Fighter não busca a perfeição narrativa nem se envergonha de suas origens. Trata-se de uma celebração caótica e honesta do universo da Capcom. Embora falhe em construir uma história coesa e peque pelo excesso de figuras secundárias, entrega entretenimento puro e sequências de combate verdadeiramente divertidas para quem se dispõe a embarcar no tom de farra.








