Como se Divorciar Durante a Guerra

(2026) ‧ 1h48

Como se Divorciar Durante a Guerra e o caos de seguir vivendo

Felipe Fornari

Nem toda tragédia histórica interrompe a vida das pessoas da maneira que o cinema costuma imaginar. Às vezes, mesmo quando o mundo parece prestes a desmoronar, ainda é preciso resolver problemas domésticos, discutir a relação e descobrir onde passar a noite. Como se Divorciar Durante a Guerra, de Andrius Blaževičius, encontra justamente nesse contraste a sua principal força: acompanhar o fim de um casamento na mesma semana em que a Rússia invade a Ucrânia, sem transformar a crise internacional em mero pano de fundo dramático nem as dificuldades íntimas em questões menores.

Marija decide se separar de Vytas quando o relacionamento já não corresponde às suas expectativas. Ela é uma executiva bem-sucedida, enquanto ele, um cineasta frustrado que interrompeu a carreira para cuidar da filha, parece incapaz de encontrar um rumo próprio. A notícia, que deveria ocupar o centro da vida dos dois, acaba dividindo espaço com o temor de que a guerra ultrapasse as fronteiras ucranianas e alcance a Lituânia. A escolha de colocar esses acontecimentos lado a lado é particularmente feliz, porque revela como crises de proporções incomparáveis podem coexistir na experiência cotidiana sem que uma necessariamente apague a outra.

O humor surge da incapacidade dos personagens de lidar com as próprias contradições. Em uma das sequências mais expressivas, o casal discute dentro de um carro, acumulando ressentimentos e acusações até que a conversa se transforme em uma briga física tão desconfortável quanto ridícula. A câmera observa o confronto com uma naturalidade que torna a situação ainda mais constrangedora, sem recorrer a cortes frenéticos ou a exageros desnecessários. É uma cena que sintetiza o olhar do diretor: as pessoas raramente se comportam de maneira exemplar quando estão sofrendo, e nem mesmo os momentos decisivos de uma relação são necessariamente organizados em torno de grandes revelações.

A separação também permite que o filme examine diferentes formas de autoengano. Marija acredita que poderá encontrar uma vida mais satisfatória fora do casamento, mas logo descobre que outras relações não oferecem a liberdade que imaginava. Vytas, por sua vez, tenta transformar a própria frustração em uma posição política e artística, assumindo o papel de dissidente enquanto enfrenta dificuldades bastante concretas para encontrar um lugar onde morar. Quando retorna à casa dos pais, ainda precisa lidar com o autoritarismo e a simpatia deles pelas ambições russas. O conflito familiar ganha, assim, uma dimensão política, embora o roteiro tenha o mérito de nunca permitir que as convicções dos personagens os tornem mais coerentes do que realmente são.

É justamente essa recusa em idealizar seus protagonistas que torna a comédia tão interessante. Vytas pode defender a Ucrânia e se opor ao autoritarismo, mas também é imaturo, ressentido e incapaz de reconhecer plenamente sua participação no fracasso conjugal. Marija, apesar de sua independência financeira, tampouco encontra a realização que esperava ao romper com o marido. Nenhum dos dois funciona como exemplo de virtude ou como porta-voz inequívoco das ideias do diretor. Em vez disso, Como se Divorciar Durante a Guerra observa pessoas comuns tentando justificar suas decisões enquanto o mundo ao redor exige que elas reconheçam problemas muito maiores do que suas próprias insatisfações.

A abordagem, contudo, nem sempre encontra a mesma precisão na dimensão política. Ao apresentar diferentes posições sobre a Rússia e a Ucrânia, o filme por vezes parece mais interessado em registrar as opiniões de seus personagens do que em desenvolver plenamente as implicações históricas e morais dessas convicções. A leveza da narrativa também pode limitar o impacto de situações que mereceriam maior aprofundamento, e o desfecho deixa a impressão de que algumas das questões levantadas foram abandonadas antes de alcançar uma conclusão satisfatória. Ainda assim, essa fragilidade não apaga a inteligência com que o diretor acompanha o cotidiano, nem a capacidade do elenco de tornar críveis personagens tão contraditórios.

No fim, Como se Divorciar Durante a Guerra encontra sua identidade ao perceber que o absurdo da vida não depende de acontecimentos extraordinários: ele já está presente na maneira como as pessoas tentam preservar suas rotinas, seus desejos e suas justificativas diante de circunstâncias que não conseguem controlar. A combinação entre drama conjugal e comédia política nem sempre produz uma reflexão tão profunda quanto promete, mas oferece um retrato perspicaz de indivíduos que confundem liberdade com fuga e convicção com autossatisfação. Seu olhar irônico não diminui a gravidade da guerra; apenas reconhece que, mesmo diante dela, ninguém deixa de ser inconvenientemente humano.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS