O Ser Querido

(2026) ‧ 2h15

O Ser Querido e o horror escondido por trás do prestígio

Felipe Fornari

O cinema costuma transformar seus bastidores em um território de encantamento, onde a criação artística justifica sacrifícios e até conflitos pessoais. O Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, escolhe o caminho oposto: por trás do prestígio, dos prêmios e da imagem de um cineasta consagrado, existe um homem cuja capacidade de manipular os outros é tão refinada quanto seu domínio profissional. O resultado é um drama psicológico perturbador, que desmonta qualquer romantização da figura do autor genial e revela o perigo de confundir talento com virtude.

Esteban Martínez, interpretado por Javier Bardem, retorna à Espanha para dirigir um novo longa-metragem e oferece o papel principal à filha, Emilia, com quem não mantém contato há treze anos. A oportunidade poderia representar uma tentativa de reconciliação, mas a distância entre os dois está longe de ser apenas consequência do tempo. Emilia carrega lembranças dolorosas da convivência com o pai, enquanto Esteban parece mais interessado em controlar a maneira como essa história será compreendida do que em reconhecer a própria responsabilidade. A proposta profissional nasce, assim, cercada por uma ambiguidade que torna cada encontro potencialmente ameaçador.

A força do roteiro está em compreender que o abuso emocional nem sempre se manifesta por meio de explosões. Esteban sabe ser cordial, articulado e sedutor, características que tornam sua postura controladora ainda mais inquietante. Quando confrontado com as lembranças da filha, ele tenta reescrever o passado, questionando sua percepção e transformando a própria culpa em uma suposta ingratidão alheia. Essa alternância entre afeto e crueldade faz com que o espectador perceba o perigo antes mesmo de os conflitos chegarem ao limite, criando uma tensão que dispensa grandes reviravoltas.

Javier Bardem oferece uma atuação extraordinária justamente por não transformar Esteban em um vilão convencional. Seu personagem conserva o charme e a segurança de alguém acostumado a ser admirado, mesmo quando deixa escapar o ressentimento diante de qualquer resistência. Há algo especialmente assustador na naturalidade com que ele acredita ter o direito de decidir o que a filha deve sentir, fazer ou perdoar. Ao seu lado, Victoria Luengo constrói uma Emilia inteligente e ferida, que não se resume à condição de vítima e cuja resistência dá ao confronto uma complexidade emocional que ultrapassa a simples disputa entre pai e filha.

Sorogoyen também encontra uma maneira particularmente eficaz de explorar o ambiente cinematográfico. As filmagens dentro do filme não funcionam como uma celebração da criação artística, mas como uma extensão das relações de poder que dominam a narrativa. Existe uma ironia evidente no fato de Esteban dirigir uma obra que pretende discutir a exploração colonial e as estruturas patriarcais enquanto reproduz, nos bastidores, comportamentos igualmente autoritários. A distância entre o discurso progressista do artista e suas atitudes privadas expõe uma contradição que vai além daquele personagem e alcança uma indústria frequentemente disposta a proteger seus nomes mais prestigiados.

A direção evita oferecer conforto ao público, permitindo que o desconforto se acumule até alcançar momentos de intensidade quase insuportável. Em vez de explicar cada ferida ou determinar com clareza as intenções de seus protagonistas, o filme deixa espaço para interpretações inquietantes: a tentativa de aproximação de Esteban pode esconder um desejo genuíno de reparar o passado, mas também uma estratégia para recuperar o controle sobre a filha. Essa ambiguidade é um dos maiores méritos da narrativa, pois impede que a reconciliação seja tratada como uma solução simples e lembra que o reconhecimento público de um homem não garante qualquer honestidade em sua intimidade.

No fim, O Ser Querido é um filme contundente sobre abuso, culpa e a impunidade emocional concedida a homens acostumados a serem admirados. Sua abordagem pode ser tão incômoda quanto os comportamentos que expõe, mas essa recusa ao sentimentalismo é precisamente o que torna o drama tão poderoso. Sustentado por duas atuações excepcionais e por uma direção que compreende a força do que permanece sem resolução, o longa questiona até que ponto a genialidade artística pode servir de escudo para a violência privada. Mais do que retratar uma relação familiar destruída, Sorogoyen investiga o mecanismo pelo qual certas pessoas transformam o amor em instrumento de domínio.

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