I Love Boosters

(2026) ‧ 1h53

I Love Boosters e a revolta colorida contra os excessos do capitalismo

Felipe Fornari

Boots Riley não parece interessado em fazer filmes que se comportem como o público espera. Em I Love Boosters, o diretor de Desculpe te Incomodar retorna à sátira surrealista para atacar o consumismo e a exploração por trás da indústria da moda, transformando uma equipe de ladras em protagonistas de uma revolta tão absurda quanto provocadora. A premissa é simples: roubar roupas de uma marca luxuosa e revendê-las por preços acessíveis. O que poderia ser apenas uma comédia sobre pequenos delitos, porém, rapidamente se converte em uma fantasia delirante sobre desigualdade, apropriação cultural e as contradições de um sistema que transforma até a identidade em mercadoria.

No centro dessa história está Corvette, interpretada por Keke Palmer, uma mulher que lidera um grupo de furtadoras de lojas enquanto tenta encontrar uma saída para a precariedade financeira. Seu alvo é a Metro, marca comandada pela extravagante Christie Smith, vivida por Demi Moore, cuja visão de moda representa o lado mais predatório de um mercado obcecado por exclusividade e lucro. A oposição entre essas personagens estabelece um conflito que vai além da disputa entre criminosas e empresárias: de um lado, está quem precisa improvisar para sobreviver; do outro, quem transforma tendências e desejos em instrumentos de enriquecimento. Riley não esconde de que lado está, mas encontra humor justamente nas contradições de uma sociedade em que o acesso a determinados produtos se tornou uma forma de distinção social.

Corvette, entretanto, não é uma heroína convencional, movida por uma consciência política completamente livre das tentações que critica. Ela conhece os mecanismos perversos da indústria e deseja desafiar suas estruturas, mas também sonha em fazer parte daquele universo. Essa ambivalência dá profundidade à personagem e impede que a narrativa se reduza a uma oposição simplista entre pessoas boas e empresários malignos. Afinal, é possível reconhecer a exploração por trás de uma peça de roupa e ainda desejar comprá-la, assim como é possível condenar o consumismo sem conseguir escapar de seus símbolos de status. Keke Palmer conduz esse conflito com carisma e espontaneidade, mantendo a personagem emocionalmente acessível mesmo quando o filme se afasta de qualquer compromisso com a lógica convencional.

A imaginação de Riley é o principal combustível da experiência. Animações em *stop-motion*, viagens no tempo, cenários distorcidos e situações que parecem surgir diretamente de um sonho compõem um universo visual no qual o absurdo funciona como ferramenta de crítica social. Em vez de explicar didaticamente as contradições do capitalismo, o diretor prefere exagerá-las até que se tornem impossíveis de ignorar. Uma dívida que parece ganhar proporções monstruosas ou um ambiente físico que desafia as leis da realidade podem ser tão expressivos quanto um discurso sobre desigualdade. Essa liberdade criativa é revigorante, embora também tenha seu preço: nem todas as ideias encontram um lugar orgânico na narrativa, e algumas parecem existir mais pelo prazer da invenção do que pela contribuição ao conjunto.

A sátira funciona melhor quando aproxima esse delírio das práticas reconhecíveis do mercado. A marca Metro não vende apenas roupas, mas uma promessa de pertencimento, exclusividade e prestígio, enquanto a criatividade de quem está fora das estruturas tradicionais de poder pode ser apropriada e transformada em lucro por quem já ocupa uma posição privilegiada. Nesse sentido, a disputa entre Corvette e Christie Smith ganha força como comentário sobre quem tem o direito de criar, lucrar e definir tendências. A estética vibrante e os figurinos exuberantes tornam esse universo sedutor, mas a beleza das imagens esconde uma realidade muito menos atraente: a produção de bens inacessíveis para grande parte do público depende de uma cadeia de trabalho e exploração que raramente aparece nas vitrines.

Nem tudo, entretanto, alcança a mesma precisão. A quantidade de ideias introduzidas ao longo da trama faz com que alguns núcleos secundários recebam menos atenção do que merecem, prejudicando o desenvolvimento das relações entre as personagens. A amizade entre Corvette e Sade, por exemplo, oferece uma possibilidade interessante de conflito emocional, mas não encontra espaço suficiente para amadurecer. Outras situações cômicas perdem a força à medida que o filme avança, enquanto determinadas excentricidades parecem desconectadas do eixo principal. A narrativa mantém sua energia, mas por vezes confunde liberdade criativa com acúmulo de estímulos, como se cada nova invenção precisasse superar a anterior sem necessariamente aprofundar o que já estava em discussão.

Ainda assim, I Love Boosters é uma sátira que merece ser celebrada por sua disposição de experimentar e por sua recusa em domesticar a própria revolta. A interpretação magnética de Palmer, a presença provocadora de Moore, a fotografia de cores intensas, os figurinos e a trilha sonora ajudam a sustentar um filme que nem sempre encontra equilíbrio, mas raramente parece desprovido de personalidade. Boots Riley transforma o absurdo em instrumento de denúncia e lembra que o capitalismo também depende de fabricar desejos, vender ilusões e estabelecer quem pode ter acesso ao que produz. Algumas de suas ideias se dispersam pelo caminho, mas a combinação de humor, inventividade e indignação resulta em uma experiência estimulante, visualmente arrebatadora e suficientemente mordaz para deixar um gosto agridoce depois da diversão.

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