Há perguntas que acompanham uma pessoa durante tanto tempo que acabam se tornando parte de sua identidade. Para Lola, uma adolescente que encontra na natação uma maneira de organizar os próprios sentimentos, a ausência do pai é uma dessas questões que insistem em permanecer sem resposta. Em Medley, adaptação do livro de Keka Reis dirigida por Ana Luíza Azevedo, as férias no interior representam uma oportunidade de afastamento dos conflitos familiares, mas também o início de uma jornada de descobertas que mudará a maneira como a protagonista compreende sua história. O filme encontra delicadeza ao abordar as inquietações da juventude sem transformar cada dificuldade em uma tragédia de proporções extraordinárias.
Ambientada nos anos 1990, a narrativa acompanha Lola enquanto ela tenta conciliar as exigências da natação com as inseguranças de uma adolescente que ainda não sabe muito bem como lidar com as próprias emoções. Apesar das medalhas conquistadas, existe um obstáculo que ela não consegue superar na piscina: o nado borboleta. Essa dificuldade funciona como uma representação dos conflitos que a personagem ainda não consegue enfrentar fora da água, especialmente aqueles relacionados à morte misteriosa do pai e à convivência complicada com a mãe. Ao chegar a Salto Bonito, ela encontra um ambiente diferente daquele ao qual está acostumada e, com ele, a possibilidade de experimentar outras formas de pertencimento.

A cidade do interior oferece novas amizades, descobertas amorosas e a oportunidade de integrar uma equipe de natação que precisa recuperar parte de sua antiga vitalidade. Esses acontecimentos poderiam facilmente transformar o filme em uma narrativa juvenil convencional, organizada em torno de romances e competições esportivas. Entretanto, Medley procura estabelecer uma relação entre essas experiências e o processo de amadurecimento de Lola. A piscina deixa de ser apenas um espaço de treinamento e passa a funcionar como um lugar em que sensações, lembranças e medos se manifestam de maneira inesperada. Nem todas essas conexões alcançam a mesma profundidade, mas existe uma coerência sensível na maneira como a história associa o desenvolvimento esportivo à descoberta de si mesma.
Um dos méritos da direção de Ana Luíza Azevedo está justamente em compreender que os conflitos adolescentes não precisam ser acompanhados de grandes demonstrações dramáticas para adquirirem importância. A relação entre Lola e a mãe, por exemplo, começa marcada pela dificuldade de comunicação e por ressentimentos que parecem impossíveis de superar. Com o avanço da narrativa, porém, a percepção da protagonista se transforma à medida que outras informações vêm à tona. Mariana Lima contribui significativamente para esse processo, construindo uma personagem que inicialmente pode despertar antipatia, mas cuja complexidade se revela aos poucos. O filme acerta ao não exigir que compreender alguém signifique necessariamente concordar com suas atitudes.
Mel Maia também sustenta a jornada com uma interpretação que privilegia as contradições da personagem. Lola é determinada em algumas situações, insegura em outras e frequentemente incapaz de expressar aquilo que sente, características que ajudam a tornar sua experiência reconhecível. Alana Cabral, por sua vez, acrescenta força ao núcleo jovem, contribuindo para a sensação de que a protagonista está descobrindo novas possibilidades de relação para além do ambiente familiar. O elenco favorece a naturalidade da narrativa, embora alguns personagens e vínculos pudessem receber mais espaço para desenvolver suas próprias trajetórias. Em determinados momentos, a história parece interessada em conduzir Lola à próxima etapa de sua transformação antes de explorar completamente as consequências das experiências anteriores.

A ambientação nos anos 1990 e o uso dos espaços ligados à natação ajudam a criar uma identidade visual coerente com essa jornada de descoberta. Em vez de depender exclusivamente da nostalgia, o filme utiliza seu contexto para estabelecer a experiência de uma adolescente que precisa encontrar respostas em um mundo no qual nem tudo pode ser explicado imediatamente. A abordagem também evita transformar o esporte em uma solução milagrosa para os problemas da protagonista: nadar pode ajudá-la a compreender o que sente, mas não elimina as dificuldades de sua vida. Ainda assim, o roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que apresenta, sobretudo a relação entre as memórias do passado e os desafios que Lola enfrenta no presente. A delicadeza é uma qualidade, mas não deveria impedir que certos conflitos fossem explorados com maior complexidade.
No conjunto, Medley é um drama juvenil sensível, que encontra na combinação entre esporte, memória e relações familiares uma maneira honesta de falar sobre amadurecimento. Sua narrativa nem sempre aprofunda todas as possibilidades que surgem ao longo do caminho, e algumas resoluções parecem mais simples do que os conflitos anunciados permitiriam esperar. Ainda assim, a direção segura e as interpretações ajudam a sustentar uma história que compreende a importância de acolher as dúvidas e reconhecer que o passado pode ser revisto sem precisar ser apagado. A trajetória de Lola não oferece respostas definitivas sobre como crescer ou superar uma ausência, mas lembra que aprender a lidar com aquilo que nos machuca também exige coragem para enxergar os outros de maneira diferente. Como na natação, às vezes é preciso enfrentar justamente o movimento que mais tememos para descobrir até onde podemos chegar.








