O Céu Treme Enquanto a Terra tem Medo e os Olhos não são Irmãos

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14.06.2016

Com um título intrigante, você não sabe bem o que esperar de “O Céu Treme Enquanto a Terra tem Medo e os Olhos não são Irmãos”, ainda mais se você escolhe seus filmes como eu: na sorte, sem nem ao menos ver o trailer antes. Então, quando diversas cenas de um filme sendo feito em uma locação quase desértica aparecem na tela, com pessoas que se movimentam em silêncio (ou cantando), penso em um filme sobre as dificuldades de se viver em um local assim, a solidão, sei lá. Fico tranquila com as expectativas, nada vai explodir, não vou ficar sobressaltada. Relaxo e aprecio o silêncio, quebrado apenas pelos gritos do diretor – o filme parece um tipo de documentário dos bastidores de um filme –, e no máximo me assusto com uma cena perigosa, na qual um dos atores tem que se jogar, de costas, de uma encosta um tanto alta, caindo sobre caixas de papelão estrategicamente posicionadas. Mas quando o diretor, após um longo dia de filmagens, chega ao hotel para descansar, e decide explorar algum local desconhecido a convite de um misterioso homem… eu realmente não estava preparada para o que se seguiu.

E o documentário se transforma em ficção (ou continuamos no documentário, ou não era documentário? Vou deixar essas indagações pra você responder). Oliver Laxe, diretor na vida real, diretor na tela, estava fazendo um filme no Marrocos, com atores locais, mandando e desmandando, e pelo jeito deixando algumas pessoas meio putas da cara. E Laxe é raptado por alguns caras da região, que o obrigam a vestir uma fantasia de homem de lata e o arrastam pelo deserto, obrigando-o a dançar. Maluquice pura. Ou o desejo doentio de Ben Rivers, famoso documentarista, diretor deste longa, de ter o controle sobre este outro diretor, Oliver Laxe, protagonista e diretor na ficção?

A história é baseada no conto Um Episódio Distante, do músico e escritor americano Paul Bowles. No conto, Bowles tem como personagem principal um professor de línguas, mas Rivers escolheu mudar muito sabiamente o personagem para um cineasta. E os resultados são intrigantes e vão te fazer pensar por horas sobre o filme. Mas não é apenas o aspecto metalinguístico do filme que o torna tão intrigante: o conto trabalha muito com temas políticos, trazendo à tona discussões que envolvem colonização, domínio de países europeus sobre os africanos (o Marrocos foi colônia francesa na primeira metade do século 19), e vemos o ódio reprimido contra o colonizador opressor surgir no filme. Dá para encarar a reação dos caras que raptam o diretor como uma vingança, não?

A verdade é que “O Céu Treme Enquanto a Terra tem Medo e os Olhos não são Irmãos” é um filme incrivelmente intrigante, que de novo trouxe para a telona documentaristas sendo retratados em documentários. Essa tal metalinguagem tá pipocando no Olhar de Cinema, ou é só impressão minha? Aguardem cenas dos próximos capítulos 😀

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AUTOR

Melissa Correa

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