May: Obsessão Assassina

() ‧

06.06.2003

"May: Obsessão Assassina": um olhar psicológico sobre solidão e obsessão

Habitantes dos cantos escuros da internet…
…vamos construir uma amizade?

May é uma jovem traumatizada, devido a um problema oftalmológico que sempre dificultou seu contato com os demais, principalmente quando criança. Agora, decidida a se conectar com as pessoas, ela acaba envolvida em uma trama sinistra.

Devido a uma infância traumática e sem amigos, May tem uma vida adulta bastante solitária, dividida intimamente apenas com a sua melhor amiga, a boneca Suzie, que ganhou de sua mãe, com a condição de nunca tirar ela de sua caixa de vidro.

Inicialmente May é uma pessoa boa, esforçada, com habilidades como costura, e hobby como ler sobre anatomia, mas que vai se transformando em alguém que nem mesmo ela esperava. Seria isso algo que já estava dentro dela o tempo todo, fruto de uma vida repleta de frustrações, ou um ambiente social doente que sempre a excluiu?

May: Obsessão Assassina é um prato cheio para quem gosta de analisar histórias sob uma ótica psicológica, já que apresenta várias características que nos levam a essa conclusão, como os comportamentos e história de vida da May, a representatividade de cada personagem, e finalmente, a personalidade obsessiva, compulsiva e assassina da protagonista.

Na infância, May é retratada com “Olho Preguiçoso”, ou “Ambliopia”, o que inicia o seu distanciamento das outras pessoas, devido ao bullying, e também pela a inabilidade de seus pais em saber lidar direito com a situação, já que sua mãe a faz usar um “tapa olho” praticamente o tempo todo, tornando-a uma menina “esquisita”.

Novamente seus pais, percebendo que sua menina não consegue se relacionar com ninguém, dão a ela uma boneca de porcelana (e vocês devem saber como essas bonecas são sinistras), com a condição de nunca tirar ela de sua caixa de vidro – caixa essa que por fim simboliza uma redoma que exclui essa personagem do resto mundo, muito parecida com a dificuldade que a May tem em sua própria vida – e assim, Suzie, se torna a sua melhor amiga, e seu exemplo de companhia ideal, e digamos, de perfeição.

Em sua vida adulta, May continua seu “relacionamento” duradouro com Suzie, sua mais antiga, e única companheira de vida, já que apesar de ter uma vida independente, morando sem os pais e tendo seu emprego (Trabalha em um Hospital Veterinário), a protagonista ainda não consegue se conectar com ninguém, nem mesmo manter uma relação mais próxima com as pessoas do seu trabalho, o que a deixa muito infeliz, pois, ela almeja não somente novas amizades, mas, também viver um grande e verdadeiro amor.

Apesar de toda a profundidade e camadas mais maduras da obra, “May” tem uma roupagem muitas vezes cômica, voltada ao humor negro, suspendendo um pouco do “coração partido” do espectador – a personagem principal é bastante relacionável, fazendo com que sintamos a dor de sua solidão – dando uma aliviada na tensão, infelizmente, as vezes, quebrando demais essa construção.

É em busca dessa conexão amorosa que May tenta superar suas barreiras emocionais, comportamentais e comunicativas, procurando conhecer uma pessoa que seja tão perfeita quanto Suzie, porém, insistentemente se decepcionando.

“Sabe quando você conhece alguém, e acha que gosta dela, mas, ao longo da conversa você percebe partes que não gosta?”

Ao longo do crescimento da personagem, aumentam também suas frustrações, o que acaba levando ao seu maior trauma, quando ela pensa ter encontrado a pessoa perfeita, e se dá conta de que tal coisa não existe, e inevitavelmente, ao seu surto mental e sua decisão final, – aliada a sua habilidade com costura e seu conhecimento sobre anatomia – construir a pessoa perfeita.

Aí é quando Carrie a Estranha encontra Frankenstein e o “inferno todo se liberta”.

Uma curiosidade sobre a atriz protagonista, Angela Bettis, é que em 2006 ela dirigiu a que é considerada a versão masculina de May, chamada Roman, inclusive contando com Lucky McKee, dessa vez sendo o protagonista, e não o diretor.

O filme May: Obsessão Assassina é considerado um clássico cult, e pode ser assistido no Amazon Prime Video.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Pedro Fonseca

OUTRAS CRÍTICAS

Nardjes A.

Nardjes A.

O diretor brasileiro Karim Aïnouz, em 2019, estava na Argélia filmando o que se tornou o seu filme Marinheiro das Montanhas e, em duas semanas, começaram algumas grandes manifestações pelas ruas do país, principalmente na capital Argel. O realizador estava em busca da...

Il Boemo

Il Boemo

Nós no Brasil usamos muito o termo “boêmio” para nos referir a pessoas que gostam dos prazeres da vida. Bebida, música, festas, sexo e jogos são elementos relacionados a uma vida boemia. Então acredito que seja comum relacionar o título do filme com o termo utilizado...

Muito Romântico

Muito Romântico

Como um personagem bem disse, “é como a onda. Vai e vem. Tem que aguentar”. É assim que encarei a longa uma hora desse filme absurdamente chato, inexpressivo e sem nexo (em minha humilde opinião). Mais com cara de documentário que de ficção, ele começa com citações de...