O que é ser um cidadão francês descendente de imigrantes árabes? Como será a vida de famílias de imigrantes nos bairros franceses?
Se você acompanha os noticiários, está ciente da intensa pressão que os imigrantes e suas famílias, principalmente árabes e africanos, sofrem nos países da Europa Ocidental. Xenofobia, racismo, insegurança, exclusão social, violência policial e outras dificuldades são o cotidiano de muitas dessas famílias que se estabeleceram em países europeus. Mehdi Fikri, diretor do filme, observou essa realidade como jornalista da revista “l’Humanité” antes de lançar seu primeiro longa-metragem, onde utiliza muito bem essa experiência para retratar como a violência policial afeta a vida de imigrantes nos bairros franceses. O filme se passa em um bairro de Estrasburgo, cidade francesa que faz divisa com a Alemanha.

A protagonista é uma jovem mulher de família árabe, Malika. Mãe de uma criança, casada e tocando seu pequeno negócio, a personagem coloca no centro da tela mulheres que sistematicamente são invisibilizadas em nossa sociedade. Camélia Jordana impressiona com sua interpretação como Malika, nos passando a angústia, força e determinação na trajetória da personagem.
Antes que as Chamas Se Apaguem acompanha a jornada dessa jovem mulher, Malika, em busca de justiça pela morte de seu irmão mais novo, Karim, vítima de violência policial acobertada pelas autoridades e pela imprensa. Em seu caminho por justiça, Malika e sua família enfrentam desafios maiores do que esperavam, como perseguição política e policial, invisibilidade, insegurança e um completo senso de impotência frente à força da articulação das autoridades envolvidas. No entanto, o luto de Malika se transforma em uma determinação obstinada, o que a leva a diversos caminhos em busca de apoio a sua causa e também a instabilidades dentro do núcleo familiar.
Mehdi Fikri parece querer provocar a reflexão do público. Do que precisamos para nos mobilizar contra injustiças? Por que a violência policial contra minorias segue acontecendo e, ainda assim, são poucos os que se levantam contra isso? O filme nos mostra o caminho de Malika, mas há muitos outros paralelos. Cada um dos manifestantes retratados ali tem histórias diferentes, mas se levantaram contra as ações truculentas da polícia contra os imigrantes e lutaram por justiça e condições dignas de vida e de sua própria existência. A morte de Karim como o estopim de manifestações mais intensas e de visibilidade para a violência policial é o roteiro escolhido no filme. Mas poderíamos encontrar diversos outros exemplos tanto na Europa como no Brasil.

A descrição da abordagem policial é um dos pontos altos do filme. Ainda que em poucos segundos, a forma como o diretor escolheu retratar a violência policial de maneira não explícita, traz sensibilidade e revolta. Nos faz pensar: “e se fosse meu irmão, irmã, mãe, pai, amigo?” Quantos Karim ainda sofrerão violência policial, quantas Malika terão que se levantar frente às injustiças para que haja uma mudança efetiva e estrutural e todas as pessoas possam usufruir de uma sociedade justa?
“On oublie pas, on pardonne pas!” Não esqueceremos, não perdoaremos! Com esse grito de ordem, tão entoado em manifestações contra a violência policial na França, Antes que as Chamas Se Apaguem encerra como um excelente manifesto contra as injustiças sofridas por minorias.






