Em Rumo a uma Terra Desconhecida, do diretor palestino-dinamarquês Mahdi Fleifel faz uso da estética de documentário para desenvolver um thriller sobre a condição do imigrante palestino na Europa. Começando com uma epígrafe do intelectual Edward Said, que diz que o palestino está fadado sempre estar em outro lugar distante, o longa nos apresenta os primos Chatila (Mahmood Bakri) e Reda (Aram Sabbah) que estão em Atenas, após saírem de um acampamento de refugiados no Líbano.

Os dois poderiam até ser lidos como “malandros” em uma cidade como Atenas. Logo na primeira cena aparecem rondando uma praça e furtam a bolsa de uma mulher. Porém, existe um olhar diante da condição deles enquanto um tipo de imigrantes de passagem, apenas fazendo o que lhes resta já que ninguém vai dar um emprego justo ou qualquer tipo de chance para recomeçar. Os dois querem chegar na Alemanha e Chatila já imaginou tudo: eles dois, sua esposa e filho (que estão no Líbano ainda) vão abrir um café em um bairro árabe e terão a melhor comida do lugar. Parece algo relativamente plausível, mas não na situação atual que vive a Europa. Para começar a realizar esse sonho, precisam chegar na Alemanha e essa parece ser uma das tarefas mais árduas desde que saíram da Palestina. Tudo ao seu redor funciona como uma rede de estratégias violentas e predatórias para conseguir dinheiro e falsificar toda uma vida futura, do tipo que não tenha o desespero de a sobrevivência imediata ser a única maneira de passar os dias.
A estranheza quanto ao espaço que estão (ou irão) é cotidiana na vida não apenas da dupla que protagoniza Em Rumo a uma Terra Desconhecida, mas também de todos os homens palestinos que convivem, em moradias precárias na cidade. É com essa internalização da precariedade que os dois irão escalar uma série de situações que possam os levar, custe o que custar, para onde querem. No entanto, justamente por serem pessoas que usam o crime como estratégia situacional de sobrevivência, ambos vão ter que encarar as consequências das suas escolhas que refletem um sistema complexo e brutal da imigração na Europa.

Em Rumo a uma Terra Desconhecida não faz concessões e não apresenta um olhar de comoção ou de esperança diante dos fatos. Porém, sempre que possível, traz a tentativa de sobrevivência conjunta e amizade, por mais distorcidas que essas situações possam se apresentar nesse contexto. O tom desolador é, várias vezes, preenchido por algum tipo de carga poética, como quando um personagem declama versos do poeta palestino Mahmoud Darwish. Talvez a terra desconhecida seja o fardo de quem vive o trauma do colonialismo. Apesar do filme saber contar uma boa história, não podemos acostumar nossa condição de espectadoras com isso.








