Gondola que acaba padecendo com o título brasileiro Teleférico do Amor (2023) é uma produção da Alemanha e da Geórgia, do cineasta alemão Veit Helmer. O filme teve sua estreia no Festival Internacional de Tóquio em 2023.
Estamos tratando de um filme em que os personagens não falam, não existe diálogo algum, o que pode provocar no expectador desavisado, um misto de incredulidade e espanto. Porém, quem conhece a cinematografia do diretor, sabe que essa é uma das características dos seus filmes, pois no lindo em De Quem é o Sutiã (2018), também não há diálogos e o roteiro é construído a partir da perspectiva de Nurlan (Predrag Manojlovic), um maquinista que parte para sua última viagem de trem antes da sua aposentadoria. Seja em um teleférico nos ares ou nos trilhos de um trem, os silêncios da narrativa, são substituídos por manifestações e gestos de delicadeza e sutileza.
Em Teleférico do Amor, Iva (Mathilde Irrmann) começa a trabalhar em um teleférico que faz ligação das montanhas da Georgia com um pequeno povoado. Para realizar a travessia, existem dois teleféricos, que se cruzam a cada meia hora, sendo conduzidos pelas atendentes, Iva e Nino (Nino Soselia). A cada trinta minutos, com o cruzamento dos teleféricos, a trama de amor e cumplicidade passa a ser construída. O encantamento passa a surgir, a partir da construção de uma espécie de amor sensorial entre as duas mulheres, que sem diálogos, constroem uma relação com profundidade, sensibilidade e empatia.

O teleférico é uma janela para a alma e para as manifestações raras e sublimes de um amor romântico. É uma poesia no céu, uma consagração do bem-querer, conduzido por ações surpreendentes de criatividade. No caso das personagens, o breve instante em que os seus olhos se entrecruzam, quando os teleféricos se encontram, são suficientes para que esse amor, raro e especial, seja fortalecido, dia após dia, através dos olhares e das formas particulares de expressá-lo, superado a todo o momento, fazendo de nós, cúmplices curiosos pelas próximas manifestações de beleza e leveza.
O silêncio fala alto, pois as ações superam o não-dito, palavras tornam-se desnecessárias. A trilha sonora dos compositores Malcolm Arison e Sóley Stefánsdóttir é magia pura, muito semelhante ao estilo de Yann Tiersen (em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001), tornando-se quase um personagem, na ausência das vozes, ela passa a assumir o papel de quebrar o silêncio com potência e doçura. Estamos tratando de uma película que é uma verdadeira ode ao amor, a ternura e a simplicidade.
Amar é correr riscos, surpreender o outro, mesmo que as protagonistas passem a maioria do tempo dentro das suas cabines, quando se cruzam, sem se tocar, o sentimento passa a ser relevado, em fugazes instantes de intimidade, tomado pelo silêncio absoluto, acreditem, não irá incomodar o telespectador, posso garantir. A quietude acaba se tornando uma amiga fiel e genial, que nos permite absorver toda a mágica que envolve as personagens, ela conforta, transmite sossego e nos acarinha.

Palavras tornam-se desnecessárias, quando a cumplicidade ascende pelo olhar, uma convocação ao amor terno que se espraia para aquela pequenina vila, cercada por montanhas e afeto, inspirado naquela linda história de amor, entre duas mulheres, que dizem tudo, sem dizer uma palavra.
Os personagens coadjuvantes são tão genuínos, expressando o que existe de mais puro, como no caso da pureza das crianças que se apaixonam, da simplicidade da senhora de feições duras e um pouco amarga, mas que se permite invadir pela força do amor. Ou ainda, o administrador do teleférico, uma espécie de vilão tragicômico, com uma existência medíocre e o cadeirante que voa pelo céu, com a ajuda de Iva e Nino, provocando uma comoção em todo o povoado.
Posso dizer que são como duas Amélies, a bordo de dois teleféricos, movidos pela ternura e pela força do silêncio e pelos breves instantes em que nos permitimos experenciar o amor.








