Faz de Conta que é Paris

(2024) ‧ 1h30

06.08.2025

"Faz de Conta que é Paris": Uma viagem que não sai do lugar

Faz de Conta que é Paris parte de uma premissa curiosa e com grande potencial emocional: três irmãos tentam realizar o último desejo do pai doente, levando-o, mesmo que de mentira, a Paris. Inspirado em uma história real, o longa poderia ter seguido por um caminho mais sensível ou até mais ousado, mas Leonardo Pieraccioni escolhe a rota mais segura — e, infelizmente, a menos inspirada.

O cenário, que se mantém praticamente restrito a um estábulo, é sintomático da limitação do próprio roteiro. A viagem ilusória, que poderia ser um recurso criativo para explorar lembranças, reconciliações e revelações, acaba reduzida a uma sequência de esquetes frouxas, sem ritmo ou propósito claro. O resultado é uma comédia sem timing e um drama sem profundidade.

Os personagens centrais carecem de camadas e desenvolvimento. Mesmo com a presença carismática de Chiara Francini, Giulia Bevilacqua e Nino Frassica, suas interações soam artificiais, como se nunca tivessem vivido de fato uma história em comum. O ressentimento entre os irmãos, que deveria ser um dos motores dramáticos da trama, é mal construído e raramente convincente.

Há uma tentativa constante de equilibrar leveza e emoção, mas o filme nunca encontra esse tom. Os momentos cômicos beiram o pastelão, sem inspiração, enquanto as tentativas de comoção surgem abruptas, sem o preparo necessário para tocar de verdade. Pieraccioni, que também dirige e atua, parece dividido entre o humor ingênuo e a vontade de dizer algo maior — e fracassa em ambos.

Tecnicamente, Faz de Conta que é Paris é correto, mas pouco memorável. A trilha sonora e a fotografia cumprem suas funções, mas não agregam textura à narrativa. Falta ambição estética e, principalmente, narrativa. O filme parece se contentar em ser apenas simpático, quando poderia ter sido muito mais.

Apesar das boas intenções e de alguns lampejos de ternura, a história não se sustenta. As resoluções são apressadas, os conflitos são superficiais e a jornada emocional dos personagens não convence. Quando os créditos sobem, fica a sensação de que a maior viagem aqui foi o desperdício do que poderia ter sido uma bela fábula familiar.

Faz de Conta que é Paris termina como começou: uma promessa que nunca se realiza. Para quem esperava rir, se emocionar ou ao menos refletir, o filme oferece pouco mais que uma encenação vazia. É uma pena, porque com mais ousadia e cuidado, essa história merecia ter realmente saído do lugar.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Nasce uma Estrela (2018)

Nasce uma Estrela (2018)

Revisitando uma história já contada em diferentes gerações do cinema, Nasce Uma Estrela encontra sua força ao atualizar o clássico romance trágico para o universo musical contemporâneo. A trama acompanha o encontro entre o astro consagrado Jackson Maine e a talentosa,...

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil

Carlota Joaquina, Princesa do Brasil ocupa um lugar especial na história do cinema brasileiro. Mais do que um simples longa, ele simboliza a retomada da produção nacional após um período sombrio, marcando a volta das histórias brasileiras para um público sedento por...

Estopô Balaio

Estopô Balaio

A migração no Brasil é muito comum do nordeste do país para cidades do sudeste como Rio de Janeiro e principalmente São Paulo, que abriga pessoas do país todo e também do mundo. Com essa mistura, a cultura do paulistano se confunde com uma que é criada do zero pelos...