A Luz

(2025) ‧ 2h42

06.08.2025

"A Luz": Fragmentos de solidão e reconexão na família contemporânea

O novo filme do alemão Tom Tykwer, diretor do aclamado Corra Lola, Corra (1998), chega às telas com uma proposta ousada e reflexiva.

A Luz é uma produção com quase três horas de duração que se constrói como um retrato íntimo e fragmentado de uma família alemã: Tim, Milena, os gêmeos Frieda e Jon, e Dio, o filho mais novo de Milena, fruto de um relacionamento fora do casamento. Apesar de compartilharem o mesmo teto, cada um vive em um universo próprio e incomunicável, a metáfora precisa da desconexão afetiva e existencial contemporânea.

O filme retrata uma família que se enreda nas amarras sociais, nas hipocrisias de um progressismo performático e nas contradições intrínsecas aos laços humanos. Entre conflitos domésticos e pressões externas, eles enfrentam o vazio da vida contemporânea, em que tensões distorcem seus ideais e expõem fraturas nas relações.

A chegada de Farrah, imigrante síria contratada para cuidar da limpeza da casa, rompe lentamente barreiras invisíveis. Misteriosa e perspicaz, ela atua como um agente catalisador, quase uma terapeuta involuntária de cada membro da família. A experiência da “luz” proporcionada por Farrah, infiltra-se na dinâmica familiar, operando como uma experiência transformadora, capaz de ressignificar existências. Simbolicamente poderia ser comparada aos efeitos do ritual da ayahuasca, uma vez que sua presença passa a expandir percepções.

Tykwer articula um filme denso e multifacetado, em que os grandes temas como imigração, identidade, aborto e sexualidade emergem de forma sutil, nas entrelinhas do cotidiano. Nada é explícito. Podemos dizer que se trata de uma meditação cinematográfica sobre a solidão compartilhada e as frágeis possibilidades de reconexão em um mundo esfacelado.

As escolhas estéticas reforçam essa dualidade entre desesperança e redenção. A paisagem constantemente chuvosa reflete o clima emocional, enquanto as composições e interlúdios musicais quebram o realismo. É daqueles filmes que valem a pena, que permanecem no pensamento muito depois dos créditos finais. Altamente recomendado.

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AUTOR

Renata Barbosa

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